«De qualquer modo, ao afirmar que uma Direita não deve ser caracterizada por um conservadorismo estático quer-se dizer que devem, isso sim, existir certos valores ou certas ideias-base operando como um firme terreno, e que aos mesmos se devem dar diferentes expressões, adequadas ao desenvolvimento dos tempos, para não se ser ultrapassado, para retomar, controlar e incorporar tudo aquilo que se vai manifestando à medida que as situações variam. Este é o único sentido no qual um homem de Direita pode conceber o “progresso”; não se trata de simples movimento para a frente, como demasiadas vezes se pensa, sobretudo entre as esquerdas; de uma “fuga para a frente” pôde falar a este respei to com razão Bernanos (“où fuyez-vous en avante, imbécils?”). O “progressismo” é uma quimera estranha a toda a posição de Direita. Também o é porque numa consideração geral do curso da história, com referência aos valores espirituais, não aos materiais, às conquistas técnicas, etc., o homem de Direita é levado a reconhecer uma descida, não um progresso e uma verdadeira subida. Os desenvolvimentos da sociedade actual não podem senão confirmar esta convicção».
Julius Evola
in Boletim Evoliano #06.
domingo, 5 de julho de 2009
Conservadorismo
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Civilização americana
«Este é o ideal do “self made man”; numa sociedade que perdeu todo o sentido da tradição o ideal de engrandecimento individual estende-se a todos os aspectos da existência humana, reforçando a doutrina igualitária da democracia pura.
Se aceitarmos tais ideias, então toda a diversidade natural tem que ser abandonada. Assim, cada pessoa pode presumir de possuir o mesmo potencial que outra e os termos superior e inferior perdem o seu significado, assim como toda a noção de distância e respeito, já que todos os estilos de vida estão abertos a todos. Frente a todas as concepções orgânicas da vida, os americanos opõem uma concepção mecanicista. Numa sociedade que “começou desde baixo”, tudo tem a característica de ser fabricado. Na sociedade americana as aparências são máscaras e não rostos. Ao mesmo tempo, os proponentes de “American way of life” são hostis ao ideal da personalidade.
A “abertura mental” dos americanos que às vezes é citada a seu favor, é simplesmente a outra face do seu vazio interior. O mesmo sucede com o seu individualismo. O individualismo e a personalidade não são a mesma coisa: o primeiro pertence ao mundo sem forma da quantidade, o outro ao mundo da qualidade, da diferença e hierarquia. Os americanos são a refutação vivente do axioma cartesiano “penso, logo existo”: os americanos não pensam, entretanto, existem. A mentalidade americana, pueril e primitiva, não tem uma forma característica e assim está aberta a todos os tipos de estandardização.»
Julius Evola
in Boletim Evoliano #05.
sábado, 13 de junho de 2009
A economia triunfa em toda a linha
"A proclamação solene dos direitos do «Terceiro Estado» em França constitui a etapa decisiva a que se seguem as variedades da «revolução burguesa», ou seja, exactamente da terceira casta, a que servem de instrumento as ideologias liberais e democráticas. Paralelamente, é característica desta era a teoria do contrato social: como vínculo social agora já nem sequer se encontra uma fides de tipo guerreiro, ou seja, relações de fidelidade e de honra. O vínculo social reveste-se de um carácter utilitário e económico: é um acordo assente na conveniência e no interesse material — o que só um mercador pode conceber. O ouro serve de intermediário e quem dele se apossar e souber multiplicá-lo (capitalismo, finanças, trusts industriais) por detrás da fachada democrática controla virtualmente também o poder político e os instrumentos que servem para formar a opinião pública. A aristocracia cede o lugar à plutocracia; o guerreiro, ao banqueiro e ao industrial. A economia triunfa em toda a linha. O tráfico de dinheiro e a agiotagem, outrora confinada nos guetos, invadem toda a nova civilização. Segundo a expressão de Sombart, na terra prometida do puritanismo protestante, com o americanismo e o capitalismo, não vive mais que «espírito judaico destilado»."
Julius Evola
in "Revolta Contra o Mundo Moderno", Publicações Dom Quixote (1989)
terça-feira, 21 de abril de 2009
O Trabalho
"Mas é no plano da ética que o processo de degradação é particularmente visível. Enquanto a primeira época se caracterizava pelo ideal da «virilidade espiritual», pela iniciação e pela ética da superação do vínculo humano; enquanto na época dos guerreiros ainda se fundavam no ideal do heroísmo, da vitória e do senhorio, na ética aristocrática da honra, da fidelidade e da cavalaria, na época dos mercadores o ideal torna-se a economia pura, o lucro, a prosperity e a ciência como instrumento de um progresso técnico-industrial ao serviço da produção e de novos lucros na «sociedade de consumo» — até que o advento dos servos eleva ao nível de uma religião o princípio do escravo: o trabalho. E o ódio do escravo vai até ao ponto de proclamar sadicamente: «Quem não trabalha não come», e a sua idiotice glorificando-se a si própria, fabrica incensos sagrados com as exalações do suor humano: «O trabalho eleva o homem», «A religião do trabalho», «O trabalho como dever social e ético», «O humanismo do trabalho»."
Julius Evola
in "Revolta Contra o Mundo Moderno", Publicações Dom Quixote (1989)
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
O verdadeiro Estado
«A característica fundamental do verdadeiro Estado é a sua organicidade. Um Estado orgânico compõe-se de partes distintas e diferenciadas, engloba unidades parciais dotadas de vida própria e hierarquicamente ordenadas. Tem por isso como base os valores da qualidade, da justa desigualdade e da personalidade. O seu princípio é o clássico suum cuique: a cada um o que lhe pertence e a cada um o seu direito, de acordo com a sua dignidade natural.»
Julius Evola
in "El Camino del Cinabrio", Ed. Heracles, Buenos Aires, 1998, p. 178.
sábado, 4 de outubro de 2008
A responsabilidade
«Depois de acusarmos a decadência da mulher moderna, não podemos esquecer que o homem é o primeiro responsável por essa decadência. Tal como a plebe nunca teria podido irromper em todos os domínios da vida social e da civilização se tivessem existido verdadeiros reis e verdadeiros aristocratas, igualmente numa sociedade dirigida por homens verdadeiros nunca a mulher teria querido e podido tomar o caminho por que hoje está a avançar. Os períodos em que a mulher alcançou autonomia e predominância têm quase sempre coincidido com épocas de evidente decadência de civilizações mais antigas. Assim, a verdadeira reacção contra o feminismo e contra todos os outros desvios femininos não é contra a mulher, mas sim contra o homem que se deveria orientar. Não se pode exigir que a mulher volte a ser mulher a ponto de se restabeleceram as condições interiores e exteriores necessárias à integração de uma raça superior, quando o homem já não conhece mais que um simulacro da virilidade.»
Julius Evola
in "Revolta Contra o Mundo Moderno", Publicações Dom Quixote (1989)
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O antigo Corporativismo
"O espírito fundamental do corporativismo era o de uma comunidade de trabalho e de uma solidariedade produtiva na qual os princípio da competência, da qualificação e da hierarquia natural actuavam como sólidos eixos, tendo como próprio um estilo de impessoalidade activa, de desinteresse, de dignidade. Tudo isto foi bem visível nas corporações artesanais medievais, nas guildas e nas Zünften: levando-nos todavia mais atrás no tempo, temos o exemplo das antigas corporações profissionais romanas. Estas, segundo uma expressão característica, estavam constituidas ad exemplum reipublicae, ou seja, à imagem do Estado, e as mesmas designações (por exemplo de milities ou milities caligati para os simples agremiados até aos magistri) reflectiam sobre o próprio plano o ordenamento militar. Relativamente à tradição corporativa, tal como floresceu no Medievo românico-germânico, teve particular relevo a dignidade de serem livres os pertencentes à corporação, o orgulho do sujeito de pertencer a ela; o amor pelo trabalho, considerado não como um simples meio de ganância, mas sim como uma arte e uma expressão da própria vocação, e ao compromisso das mestrias se vinculava a competência, o cuidado, o saber dos mestres de arte, o seu esforço para o potenciamento e elevação da unidade corporativa, a sua tutela da ética e das leis de honra que a mesma tinha como próprias. O problema do capital e da propriedade dos meios de produção quase não aparecia aqui, tão natural era o concurso dos múltiplos elementos do processo produtivo para a realização do fim comum. Para mais, tratava-se de organizações que tinham «como próprios» os intrumentos de produção, instrumentos que ninguém pensava monopolizar para fins de exploração e que não estavam vinculados a uma finança estranha ao trabalho. A usura do «dinheiro líquido» e sem raízes — o equivalente ao que hoje é o uso bancário e financeiro do capital — era considerado como coisa de Judeus e para eles deixada, estando muito longe de condicionar o sistema."
Julius Evola
in "Los Hombres y las Ruinas", Ediciones Heracles
quarta-feira, 18 de junho de 2008
"Tudo isto cubriria de ridículo a ideia de uma Europa una"
"A unidade europeia seria sempre precária apoiando-se sobre algo como um parlamento internacional privado de uma autoridade única e superior, com representações de diferentes regimes políticos de tipo democrático, regimes que, por serem constantemente condicionados por baixo, não podem de alguma maneira assegurar uma continuidade de vontade e de direcção política. Num regime democrático a soberania do Estado é efémera, uma nação não apresenta uma verdadeira unidade, e é pelo mero número monopolizado, hoje por um partido, amanhã por outro, com as suas manobras no sistema absurdo de sufrágio universal, que a vontade política é condicionada de forma quotidiana, faltando pois os caracteres de um todo orgânico. (...) Com a democracia por um lado, e por outro um parlamento europeu que reproduzisse em grande o espectáculo desolador e pavoroso apresentado pelos actuais parlamentos democráticos europeus: tudo isto cubriria de ridículo a ideia de uma Europa una."
Julius Evola
in "Los Hombres y las Ruinas", Ediciones Heracles
sábado, 14 de junho de 2008
Acção-Reacção
"Naturalmente, o termo “reacção” tem em si mesmo um certo tom negativo: quem reage não tem a iniciativa da acção: reage-se, de forma defensiva, perante algo que já se afirmou de facto. É necessário pois precisar que não se trata de deter os avanços do adversário sem dispor de algo positivo. O equívoco poderia ser eliminado associando a fórmula de “reacção” à de uma “revolução conservadora”, na qual é posto em relevo o elemento dinâmico, deixando de significar “revolução” a subversão violenta contra uma ordem legítima, mas uma acção projectada para pôr fim a uma desordem ocorrida, remetendo a uma situação de normalidade. De Maistre destacou que aquilo que se trata, mais que uma “contra-revolução” no sentido estrito, é o “o contrário de uma revolução”, ou seja uma acção positiva que se remete às origens. É estranho o destino das palavras, “revolução” na sua etimologia original latina não queria dizer algo distinto; derivado de re-volvere, o termo expressava um movimento que remete ao ponto de partida, à origem. Portanto, justamente das origens se deveria obter a força “revolucionária” e renovadora, para actuar contra a situação existente."
Julius Evola
in "Los Hombres y las Ruinas", Ediciones Heracles
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Revolta contra a Guerra Moderna
"Depois de chegados à superprodução e à condição de nações que, demográfica ou industrialmente, «não têm espaço», impõe-se uma saída e, onde a «guerra indirecta» e as acções diplomáticas não forem suficientes, passa-se às acções militares, que têm, aos nossos olhos, um significado extremamente mais baixo que o que podem ter tido as invasões bárbaras. Este género de subversão tem atingido, no decorrer dos últimos tempos, proporções mundiais, sob a cobertura da retórica mais hipócrita. Têm sido mobilizadas as grandes ideias da «humanidade», da «democracia» e da «liberdade dos povos», enquanto por um lado - no plano exterior - (…) se fez descer o ideal heróico ao nível policial, porque as novas «cruzadas» não souberam encontrar uma bandeira melhor que a de uma «acção contra o agressor»; e, do lado interior, para além das fumaças desta retórica, a única força determinante tem sido a vontade de poder brutal e cínico de obscuras forças capitalistas e colectivistas internacionais.
Ao mesmo tempo, a «ciência» conduziu a uma extrema mecanização e «tecnicização» da aventura guerreira, pelo que hoje em dia não é tanto o homem que combate contra o outro homem, mas sim é a máquina que combate contra o homem, sendo em caso limite utilizados - com a guerra aérea «total» indiscriminada, com as armas atómicas e as armas químicas - sistemas racionais de extremínio em massa, obscuros e inexoráveis, sistemas que anteriormente só podiam ser concebidos para aniquilar micróbios ou insectos. Que milhões e milhões de homens, arrancados maciçamente a ocupações e vocações completamente estranhas às do guerreiro, tenham sido feitos literalmente, como se diz na gíria técnica militar, «material humano», e morram em aventuras semelhantes - isto sim, é que é uma coisa santa e digna do nível actualmente atingido pelos «progressos da civilização». O que julgar de acordo com os valores da «outra margem» não chegará na maior parte dos casos, a ver muito mais, no sangue que corre pelos campos, que o adubo de que a terra precisa."
Julius Evola
in "Revolta Contra o Mundo Moderno", Publicações Dom Quixote (1989)
sexta-feira, 30 de maio de 2008
A escravatura dos novos tempos
"O que se deve antes salientar é que se houve alguma vez uma civilização de escravos em grande escala, foi exactamente a civilização moderna. Nenhuma civilização tradicional viu alguma vez massas tão numerosas serem condenadas a um trabalho obscuro, sem alma, automatizado, a uma escravatura que nem sequer tem como contrapartida a elevada estatura e a realidade tangível das figuras de senhores e de dominadores, mas que é imposta de maneira aparentemente inofensiva pela tirania do factor económico e pelas estruturas absurdas de uma sociedade mais ou menos colectivizada. E como a visão moderna da vida, no seu materialismo, retirou ao indivíduo todas as possibilidades de conferir ao seu próprio destino um elemento de transfiguração, de ver nele um sinal e um símbolo, assim a escravidão de hoje em dia é a mais tenebrosa e a mais desesperada de todas as que foram alguma vez conhecidas."
Julius Evola
in "Revolta contra o Mundo Moderno", Publicações Dom Quixote (1989)




