«Acusas os dirigentes de serem coniventes com os selvagens e os criminosos, diz o colegial. Não somente eles não fariam nada para combater a criminalidade mas não poupariam sequer qualquer meio para a ajudar a desenvolver-se. Que seja… Mas, de facto, porquê? Por que é que não combatem a criminalidade? Ela é-lhes de grande importância, diz a Advogada. Devem-lhe, de facto, o seu poder. Sem ela, cairiam. É ela que lhes assegura o funcionamento quotidiano. Sim, quotidiano. O autor explicará isso melhor que eu. Ele desenvolveu toda uma teoria a esse respeito: a desordem como condição da ordem, etc. Não é sem relação com a teoria do Caos. Se te interessas por essas coisas, diz a estudante, vai ver American Gangster, o último filme de Ridley Scott. Há no filme uma réplica interessante. Conto-ta como me lembro, completando-a apenas um pouco. Salvo erro, é o mafioso em pessoa que a formula, depois da sua detenção. O mafioso negro de Harlem. Dirige uma vasta rede de distribuição de heroína. E coloca a questão: o que aconteceria se tal mercado desaparecesse? A resposta é clara: são centenas de milhar de empregos que desapareceriam ao mesmo tempo: polícias, claro, mas também advogados, juízes, carcereiros, funcionários aduaneiros, treinadores de cães especializados na detecção de droga, médicos e outros profissionais de saúde, trabalhadores sociais, sociólogos, etc. Não reflectimos o suficiente sobre as ligações entre a economia e a criminalidade. Sabemos que a criminalidade custa caro, mas paralelamente, também, o que esquecemos é que ela faz viver muita gente. Os próprios criminosos, claro, mas não somente. Todo o tipo de outras pessoas também.»
Éric Werner
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
O Estado cúmplice
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Jogo de enganos
Há um povo orfão da Direita. Há um povo que é de uma Direita que se recusa a compreender-se e a compreendê-lo. Há um povo, concluiria, que aguarda uma Direita popular no discurso, coonservadora e patriótica nos valores e solidária na economia...
Há uma Direita que perdeu a memória das suas origens pois não se lhe conhecessem valores comunitários mas tão-somente o elogio de supostas “ liberdades individuais”, não reconhece os seus familiares e amigos pois o seu discurso ignora e despreza um eleitorado que a espera, cuspiu nos seus antigos mestres quando se associou com liberalismos e materialismos económicos e, por fim, faz papel de empregada da alta finança e todos pensam que, qual serviçal, é para ela que trabalha.
As recentes eleições americanas comprovaram-no uma vez mais. Em vésperas da eleição as reportagens televisivas e artigos de jornais (*) mostraram repetidamente essa «white middle class», esses «blue-collar white workers» que não gostavam de Obama, e não gostavam dele, como pudemos constatar em todas as peças desse tipo que vimos, porque Obama não era conservador nos costumes e porque não fazia parte do seu povo, já que não fazia parte da sua raça e esse é um elemento fundamental para que um povo se percepcione integralmente como tal.
Mas ao mesmo tempo que, artigo após artigo, reportagem após reportagem, aqueles homens e mulheres manifestavam a sua falta de empatia com o candidato democrata, havia outra particularidade que se repetia: a sua intenção de nele votarem…não por causa do «complexo de culpa do homem branco» mas pelo sentimento de impotência perante as imposições do capitalismo globalizado e a injustiça e desigualdade social.
E perante estas mãos que se estendiam à procura de uma alternativa que lhes permitisse conciliar a defesa da sua identidade, o seu conservadorismo, com o combate aos despotismos do mercado, a Direita republicana americana, que é muito liberal, e é aliás uma das fontes da contaminação liberal nas Direitas europeias, lançou o alerta vermelho, era o pânico, o caos, «God all Mighty!», havia a desconfiança que Obama pudesse ter tendências socializantes!
Naturalmente, nem num país que fez do anti-socialismo uma das suas bandeiras definidoras aquele discurso, em contramão, poderia obter resultados.
E entretanto há um povo que aguarda uma Direita que não aparece, há uma Direita corrompida por quem não a serve e existem os corruptores que, na realidade, são meros yuppies formados no anticomunismo por receio de perderem privilégios e posses materiais… e claro, há uma Esquerda que continua a beneficiar de todo este jogo de enganos.
Rodrigo N.P.
(*) Veja-se a título de exemplo, e apesar da forma propositadamente caricatural como são apresentadas algumas das pessoas entrevistadas, o artigo publicado no "The Times" a 16 de Outubro: «Obama looks like a terrorist but I'll vote for him anyway»
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Fome
Descobri numa dessas passagens de ocasião pela FNAC que a Cavalo de Ferro editou "Fome" de Knut Hamsun.
"Fome" é um relato desesperante de um homem qualquer, sobre o qual nada sabemos, em luta contra a pobreza, uma pobreza opressiva que domina a atmosfera da história em todos os momentos. O tema tinha, à priori, todas as condições para poder ter transformado o livro numa dessas obras de referência do esquerdismo miserabilista…
Não é assim…e não é assim porque o combate do personagem permanece sobretudo interno, e nunca chega, verdadeiramente, a ganhar uma dimensão sociológica. É do princípio ao fim uma guerra íntima e não uma história de ressentimento e revanchismo societário.
A chave reside no carácter daquele homem. Acima de tudo é um homem orgulhoso. Enquanto trava uma luta diária pela sobrevivência, uma batalha que é, portanto, ditada pelas condições da vida exterior, trava uma outra luta, a de preservar e projectar uma certa imagem de si mesmo, ditada por um temperamento altivo.
Todo o livro está marcado por esse cruzamento, quase esquizofrénico, de realidades conflituantes, de um lado aquela vida exterior degradante e do outro a tentativa de preservar interiormente o seu “eu”, a sua honra. Com o passar das páginas há uma invasão crescente do espaço interno do personagem pela realidade externa, desde a percepção antagónica que ele e os outros fazem dos seus actos, a uma degradação comportamental e intelectual provocada pela fome.
No culminar desse conflito recebe, por engano, uma soma de dinheiro. Pensamos, por fim, na salvação, no meio para ultrapassar a dor, as agruras daquela vida, mas nesse conflito final será a sua honra, o seu orgulho, a prevalecer, provavelmente, e paradoxalmente, condenando-o.
Rodrigo N.P.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Amateur, interracial, mature, gangbang, blowjob, teen...
«A pornografia desregula as relações sexuais clássicas. Transforma as pessoas em escravas e empurra-as para um modo de vida destruidor que arruína as suas relações ao mesmo tempo que enriquece os canalhas. Se não é nas aulas de biologia na escola, hoje, a maior parte dos jovens têm o primeiro contacto com o sexo através da pornografia. Antes do surgimento dos Media de Massa, essas imagens eram relativamente difíceis de encontrar. Eram vendidas às escondidas. Actualmente a pornografia está por todo o lado, em particular na Internet. Banalizou-se ao ponto de já não ser controversa, excepto sob as suas formas mais extremas. Antes mesmo da sua primeira relação sexual com uma mulher, milhões de jovens homens passam a adolescência a apurar a sua experiência sexual.
A experiência tem uma influência muito pequena na reprodução dos pequenos animais. Um rato não experimentado chegará instintivamente a copular tão bem quanto um rato mais velho. É diferente no caso dos primatas. Os jovens símios têm necessidade de ver os mais velhos e reproduzir as suas posturas. Os símios criados em isolamento numa jaula, de onde podem ver mas não tocar outros símios são, em geral, incapazes de copular na idade adulta.
Os seres humanos que vêm pornografia, em particular os jovens, programam o seu cérebro com experiências que os afectarão na sua vida sexual. Nos filmes pornográficos, a ausência da ideia de que os casais podem estar apaixonados é uma influência muito perniciosa. Na maior parte do tempo, são dois desconhecidos, e frequentemente mais, que decidem ter uma relação sexual. Isto contribui para dissociar o sexo do amor. Sem falar dos elementos de humilhação e violência que encontramos na maioria desses filmes.
Os homens e as mulheres têm uma concepção estranha uns dos outros também por culpa da pornografia. Consequentemente, numerosas mulheres pensam que todos os homens têm as mesmas perversões. Elas pensam que devem comportar-se e parecer como “estrelas porno” afim de poderem seduzir os homens da sua escolha. Cada vez mais não hesitam em recorrer à cirurgia plástica para chegar aos seus fins. E o facto é que cada vez mais homens esperam verdadeiramente que as suas mulheres se pareçam com esse estereótipo.
A pornografia é também uma causa de impotência entre os homens. Age como uma droga que condiciona o seu utilizador a deixar de apreciar os prazeres naturais que a vida oferece. Fazer amor com a sua esposa pode rapidamente tornar-se banal em comparação com os milhares de imagens e de filmes a que se pode facilmente ter acesso hoje em dia na Internet. Isto tem tendência a emascular os homens, visto que já não conseguem verdadeiramente ser excitados por uma mulher autêntica. Esta situação torna-se realmente patética. O dinheiro gerado por esta indústria e as suas consequências é enorme. Não falamos aqui somente dos milhões directamente aplicados na indústria mas também das terapias, dos divórcios e dos medicamentos, de tipo viagra, que supostamente resolvem os problemas de erecção. A sociedade paga o preço, sem falar dos indivíduos, mas essa mesma sociedade não é doravante animada por nada mais que o desejo de lucro.
O culto do individualismo faz crer que a vida é feita unicamente para o prazer e que não há nada de mal em satisfazer-se. No passado as religiões ofereciam princípios de vida que foram depois invertidos. Hoje em dia, a maior parte das pessoas não conhecem limites morais e viram-se para os Media para ter uma ideia do que é socialmente aceitável. São assim muito vulneráveis a todos aqueles que os querem explorar. Os Media vendem-lhes o que lhes pode dar prazer e mantê-los calmos. O sexo vende e tornou-se um produto muito lucrativo.
Não se espere, portanto, dos nossos governos o que quer que seja para resolver o problema. São cúmplices. Cabe-nos, então, a cada um nós, procurar que ninguém por quem tenhamos afecto caia na armadilha.»
Zentropa.Info
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Os homens não conhecem épocas...
"Para dizer as coisas numa palavra, o desaparecimento da guerra do horizonte da nossa história conduziu em todas as sociedades europeias ao desaparecimento da masculinidade e à irrupção da feminilidade. Tentemos compreender. Um homem não é legitimado na sua virilidade senão pela sua função de protecção e de provimento. Do mesmo modo, uma mulher é antes de tudo legitimada pela reprodução e a perpetuação da vida. Oiço os protestos indignados. E contudo vou agravar o meu caso. Nada mudou desde as primeiras sociedades de clãs caçadores. O homem enquanto arquétipo é sempre o Sr. Cro-magnon cuja mulher e os filhos esperam que traga uma corça para o jantar e que proteja o lar contra os ladrões. Quanto à mulher, ela é sempre a Sr.ª Cro-Magnon, que se arranja para receber o seu homem, dá-lhe belas crianças e mantém viva a chama do lar.
Quando falo do masculino em oposição ao feminino, não penso, contudo, em pessoas particulares entre as quais figuram todas as excepções. Penso em valores e arquétipos. Como escreveu de forma ligeira um psicólogo americano que não havia perdido o juízo (John Gray), os homens e as mulheres vêm de planetas diferentes, os homens de Marte as mulheres de Vénus.
No cinema, mundo de arquétipos, o masculino é incarnado por Jean Gabin, Lino Ventura ou Clint Eastwood. Dão-se bem com o conflito e procuram-no. São silenciosos e firmes. São pais autênticos que sabem punir se necessário."
Dominique Venner
in NRH 37, Julho de 2008
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Cada época tem os heróis que merece...
"Como é possível definir como «homem de acção» quem, no seu trabalho de gestor, faz cento e vinte telefonemas por dia para vencer a concorrência? É um homem de acção aquele que é louvado porque aumenta os ganhos da própria empresa, viajando para os países subdesenvolvidos e aproveitando-se dos seus habitantes? Na nossa época são geralmente estes vulgares dejectos sociais a serem julgados homens de acção. Atolados nesta sujidade estamos obrigados a assistir à decadência e à morte do modelo de Herói, que exala já um fétido odor."
Yukio Mishima
in "Introduzione alla Filosofia dell'Azione", Feltrinelli, 1990-2006, P.109
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Portugal a saque
Há poucas semanas foram os confrontos na praia de Santo Amaro de Oeiras, que obrigaram à actuação de 3 equipas da brigada de intervenção rápida da PSP. Alguns frequentadores e trabalhadores da praia disseram aos jornalistas, de cara tapada, com medo, que o que ali se passara era relativamente frequente.
Agora, um bairro de Loures a fazer lembrar um qualquer teatro de guerra urbana, com confrontos armados entre milícias étnicas.
No jornal “24 Horas” noticia-se que a polícia escondeu da opinião pública um outro tiroteio na Amadora.
Por outro lado, aos jornalistas é dito que não devem indicar a etnia dos criminosos.
Não ficamos surpreendidos com as ocultações, são habituais, e são as ordens que vêm de cima, do poder político. O objectivo é que os portugueses não conheçam as consequências reais da imigração, porque no mundo de hoje o que não é notícia não existe. Os criminosos, diz-nos a comunicação social, são sempre uns "jovens". A humanidade não tem, aliás, memória de uma juventude assim...
O denominador comum a estes casos, como à maioria dessa criminalidade urbana e violenta de cariz grupal é a população imigrante, em particular a africana. Esta é uma verdade bem conhecida de todos os que já viveram “in loco” estes problemas, mas é também uma verdade proibida, que não pode ser dita, porque ela coloca em causa o sagrado dogma da bondade da imigração e da igualdade dos povos.
Rodrigo N.P.
bf_europa@yahoo.com
sábado, 12 de julho de 2008
Nem esquerda nem direita (Dissidência!)
O lúcido pensador italiano Marcello Veneziani começa um belo artigo sobre o antiglobalismo com a seguinte observação: "Se olharmos bem para eles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e do Che Guevara.
Imediatamente nos damos conta de que nenhum deles põe em causa o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o melting pot e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. E a acrescentar a isso: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e anti-tradicionais se tornam".[1]
Posto isto, a oposição da esquerda à globalização é só uma postura que se esgota numa manifestação. Seattle, Génova, Nova Iorque, Porto Alegre, e acabou, "o mundo continua" como dizia Discepolin. É que a política do "progressismo", como bem observou o filósofo, também italiano, Massimo Cacciari, ordena os problemas mas não os resolve.[2]
Do mesmo se queixa o sociólogo marxista mais importante da América Latina, Heinz Dieterich Steffan, que num recente artigo refere: "Se a tarefa actual de todo o indivíduo anticapitalista é absolutamente clara: Porque é que a "esquerda" e os seus intelectuais não a assumem? Porque repetem, fórum após fórum, a mesma lengalenga sobre a maldade do neo-liberalismo e se contentam com as suas ritualizadas propostas terapêuticas inspiradas em Keynes, Tobin y Stiglitz? Porque não convertem a realidade capitalista em objecto de transformação anti-sistema, em vez de a manterem como muro de lamentações?".[3]
O fracasso rotundo da esquerda, hoje rebaptizada de "progressismo", é que, além de não ter compreendido – deglutido será o termo exacto – a derrota do "socialismo real" com a implosão soviética e com a queda do Muro, não reelaborou as suas categorias de leitura, e permanece enclausurada no mundo categorial de Marx, Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo e eventualmente Trotsky, fazendo arqueologia política.
A escola neo-marxista de Frankfurt, através dos esforços de Adorno, Apel, Cohen e Marcuse, termina com o publicitado Habermas e a sua teoria do consenso (sem se aperceber que o consenso sempre foi o dos poderosos entre si), e os seus discípulos James Bohman e Leo Avritzer com a sua teoria da democracia deliberativa, que como um novo nominalismo pretende resolver as injustiças políticas, económicas e sociais com palavras. Conversando numa espécie de assembleísmo permanente.
Se a esquerda está liquidada, o que dizer da direita? Pode-se esperar algo dela?
Da direita clássica, tanto do nacionalismo orgânico ou integral ao estilo de Charles Maurras, como do fascista de Mussolini ou do católico de Oliveira Salazar pouco permanece. Só trabalhos de investigação históricos e pequenos grupos políticos sem peso nas suas sociedades respectivas.
Resta então como direita o neoconservadorismo norte-americano e dos governos que lhe são afins. E desta direita liberal, a única que existe com peso político, só se pode esperar que as coisas piorem para a saúde e bem-estar dos povos.
Se isto é assim, denunciamos uma vez mais, de entre as centenas de vezes que o tentámos demonstrar, que a dicotomia esquerda/direita é estreita, para não dizer falsa, para fazer uma leitura adequada da realidade.
Hoje situar-se à esquerda ou à direita é não situar-se, é colocar-se num não-lugar, sobretudo para o pensador (recuso terminantemente o termo intelectual) que pretende elaborar um pensamento crítico. E o único método que hoje pode criar pensamento crítico é a dissidência. Dissidência não só com o pensamento único e politicamente correcto mas também e sobretudo, com a ordem constituída, com o status quo vigente.
A dissidência é estruturalmente uma categoria do pensamento popular, tal como o consenso, que, como vimos, é uma apropriação da esquerda progressista para alcançar a democracia deliberativa que tem muito de ilustrada, e também, ainda que noutro sentido, propriedade do liberalismo como acordo dos que decidem, dos poderosos (G8, Davos, FMI, Comissão Trilateral, Bilderberg, etc.).
A dissidência que se manifesta como negação tem distinto sentido no pensamento popular e no pensamento culto. Neste último, regido pela lógica da afirmação, a negação nega a existência de algo ou alguém, enquanto que no pensamento popular o que se nega não é a existência de algo ou alguém, mas antes a sua vigência. A vigência pode ser entendida como validez, como sentido. A dissidência nega o monopólio da produtividade de sentido dos grupos ou lobbies, para reservá-la ao povo no seu conjunto, para lá da partidocracia política.
A alternativa hoje é situar-se para além da esquerda e da direita. Consiste em pensar a partir de uma raiz, do nosso genius loci nas palavras de Virgílio. E não uma raiz qualquer, mas a das identidades nacionais, que formam os ecúmenos culturais ou regiões que constituem hoje o mundo. Com isto vamos para além inclusive da ideia de estado-nação, em vias de esgotamento, para penetrarmos na ideia política de grande espaço etnocultural.
É a partir destas grandes regiões que é lícito e eficaz posicionar o combate à globalização, ou americanização do mundo. Fazê-lo como pretende o progressismo: a partir do humanismo internacional dos direitos humanos, ou desde o ecumenismo religioso como ingenuamente pretendem alguns cristãos, é fazê-lo a partir de mais um universalismo. Com a agravante que o seu conteúdo encerra um aspecto laudatório, mas vazio, inverosímil e não eficaz na hora do confronto político.
Todavia este confronto está, ainda assim, a acontecer, apesar do fracasso dos pensadores em entendê-lo, através do surgimento dos diferentes populismos, que não obstante os reparos que apresentam a qualquer espírito crítico, estão a modificar, como observa Robert de Herte[4] as categorias de leitura. Assim, a oposição da esquerda clássica entre burgueses e proletários vai sendo substituída pela de povo vs. oligarquias, sobretudo financeiras, e a de esquerda e direita, pela de justiça e segurança.
Ora, do ponto de vista da esquerda progressista a crítica à globalização limita-se à não extensão dos benefícios económicos à humanidade, mas apenas a uns poucos, pois a esquerda, pelo seu carácter internacionalista não pode denunciar o efeito destruidor sobre as culturas tradicionais e sobre as identidades dos povos. A sua denúncia transforma-se assim numa reclamação formal para que a globalização esteja unida aos direitos humanos.
Em sentido contrário, é a partir dos movimentos populares que se realiza a oposição real às oligarquias transnacionais.[5] É a partir das tradições nacionais dos povos que melhor se demonstra a oposição à sociedade global sem raízes, a esse imperialismo desterritorializado de que falam Hardt e Negri. É com base na atitude não conformista que se rechaça a imposição de um pensamento único e de uma sociedade uniforme, e se denuncia a globalização como um mal em si mesmo.
O pensamento popular, quando o é de facto, parte das suas próprias raízes, não tem um saber livresco ou ilustrado. Pensa a partir de uma tradição, que é a única forma de pensar genuinamente, segundo Alasdair MacIntyre[6], dado que "uma tradição viva é uma discussão historicamente desenvolvida e socialmente encarnada". Pelo que se torna impossível aos povos e aos homens que os encarnam situarem-se fora da sua tradição. Quando o fazem desnaturalizam-se, deixam de ser o que são. São já outra coisa.
Alberto Buela
________________________________________
[1] O antiglobalismo de direita. Marcello Veneziani (1955). Jornalista do Giornale e do Menssaggero e colaborador com a RAI, é autor de vários ensaios entre os quais se destacam: La rivoluzione conservatrice in Italia (1994), Processo all´Occidente (1990) y L´Antinovecento (1996). Podemo-lo incluir dentro da corrente de pensamento não-conformista.
[2] Massimo Cacciari (1944). Filósofo, deputado do PC. Presidente do Município de Veneza até 1993. Autor de vários ensaios: L´Angelo necesario (1986), Dell´Inicio (1990), Dran: Meridianos de la decisión en el pensamiento contemporáneo (1992), Geo-filosofia dell´Europa (1995). Pensador dissidente da esquerda europeia.
[3] La bancarrota de la izquierda y sus intelectuales (31-3-04). Heinz Dieterich Steffan, é sociólogo e professor na UNAM do México e colunista do diário El Universal. Promotor itinerante em todos os países da América de um novo projecto histórico do marxismo. É autor de uma trintena de livros entre os quais se destacam: El fin Del capitalismo global (1999) y La crisis de los intelectuales en América Latina (2003)
[4] Robert de Herte é o pseudónimo de Alain de Benoist (1943). Editor das revistas Eléments y Krisis e autor de inumeráveis trabalhos entre os quais devemos recordar Vu du droite (1977), Orientations pour des années décisives (1982), L´empire intérieur (1995), Au-dela des droits de l´homme (2004). É o mais importante pensador de uma corrente de pensamento não conformista, alternativa e anti-igualitarista, onde se destacam, entre outros, Guillaume Faye, Robert Steuckers, Julien Freund, Alessandro Campi, Claude Karnoouh, Tarmo Kunnas, Thomas Molnar, Dominique Venner, Pierre Vial, Javier Esparza, Giorgio Locchi, etc.
[5] Sobre a relação entre pensamento popular e negação pode-se consultar com proveito o livro La negación en el pensamiento popular (1975) do filósofo argentino Rodolfo Kusch (1922-1979), assim como o nosso trabalho: Papeles de un seminario sobre G. R. Kusch (2000). Entre os não poucos filósofos originários da Argentina (Taborda, de Anquín, Guerrero, Cossio, Rougés) Gunther Rodolfo Kusch ocupa um lugar destacado. Não só pela originalidade dos seus posicionamentos filosóficos mas principalmente porque os mesmos geraram uma corrente de pensamento através da denominada filosofia da libertação no seu ramo popular.
[6] Alasdaire MacIntyre (1929) é um filósofo escocês que vive e ensina nos Estados Unidos e que se destacou pela sua crítica à situação moral, política e social criada pelo liberalismo. Os seus trabalhos são a base de todo o pensamento comunitarista norte-americano. Os seus livros mais destacáveis são: After Virtue (1981), Whose Justice? Which Rationality? (1988), Three rival versions of moral enquiry (1990).
sábado, 5 de julho de 2008
Uma resposta breve ao Corcunda
Diz o Corcunda, sobre o meu texto “A Revolução contra a Contra-Revolução”:
«Há uns tempos no blogue Inconformista, Rodrigo N. P., publicou um artigo que falava sobre o Nacionalismo e a Direita Anti-Revolucionária. É quase um manual para o nacionalista de hoje, moderníssimo (ultra-moderno, aliás) que corta a direito e vai directo às preocupações do homem actual. Caminha no sentido da actualidade em todos os sentidos, incluindo na superficialização de conceitos e na incapacidade de alcançar sentidos nas palavras que ultrapassem a superficialidade momentânea.»
Situo-me na actualidade e falo para o homem actual, o que é diferente de me situar na modernidade e de falar para o homem moderno. A forma como o homem se relaciona com o mundo é sempre um produto da sua biologia, do seu tempo e do seu espaço. Esta minha posição reafirma a rejeição do espírito sem matéria, do homem a-histórico e do homem universal.
O que fiz foi precisamente o contrário de uma superficialização, foi uma clarificação de conceitos, redireccionando a Nação para o seu sentido originário, o de uma comunidade de raça. Nação provém etimologicamente do latim “nationem” que designava aqueles que nasciam no seio de um mesmo povo, de uma mesma etnia. Trata-se primeiramente de um conceito biológico, não de uma "comunidade de valores”. A adulteração do conceito de Nação para significar a comunidade jurídica política é o que acorrenta a Nação à Modernidade, é aí que reside a rendição da Nação à vontade dos triunfadores da História.
«O Nacionalismo (como apanhou bem o GdR) a que o autor se refere, corresponde a uma situação em que a adesão política vai para a comunidade, independentemente do que esta defende e acima de toda a actividade especulativa. Se não existe Nação numa situação em que a comunidade se articula em torno de valores exteriores a si, ficamos a saber que Portugal nasce com a I República e que até então seria uma outra coisa qualquer. Isto já diz muito sobre esta forma de nacionalismo.»
É evidente que o nacionalismo corresponde a uma situação em que a adesão política vai para a comunidade - enquanto Nação - mas para se compreender verdadeiramente isso é imprescindível ter presente a distinção entre Estado e Nação, porque quando dizemos que o nacionalismo significa aquilo, estamos a afirmar que o nacionalismo é, antes de mais, a defesa da identidade nacional (o que, como já vimos atrás, implica a defesa da estirpe).
Daqui resulta que se o Estado actuar contra a identidade da Nação, é necessidade imperativa do nacionalismo ter esse Estado por adversário. Da mesma forma, se o Estado decidir proceder a um acto hostil contra outra comunidade, na exacta medida em que essa acção não aja em defesa da identidade nacional, ela não pode vincular o nacionalismo.
É particularmente engraçada a conclusão de que se a comunidade não se articular em torno de “valores exteriores a si” Portugal nasceria com a I Republica. Ora, este raciocínio é uma prova da minha razão, porque quem assim fala não compreende a diferença entre o Estado e a Nação; a ruptura que a I República impôs foi no âmbito do Estado, não da Nação. A mesma Nação existiu depois da I República como antes dela.
Pelo contrário, é o Corcunda que, ao pretender que a “Nação” apenas tivesse sentido ao serviço daquela fantasia dos “valores exteriores”, vem pousar para esse retrato, porque é precisamente esse delírio que permitiria proclamar o fim da “Nação” com o advento da I República.
«Depois vem uma enorme confusão. Diz o Rodrigo N. que o Contra-Revolucionário luta por uma comunidade jurídica e que o nacionalismo que perfilha se guia por um critério histórico. Se este erro é comum, não é certamente menos disparatado. Ao longo de toda a Época Medieval não existiu qualquer teoria que tenha defendido a defesa do Rei ou da comunidade política apenas por esta ser a sua. Pelo contrário, a filosofia política medieval supreende o homem moderno pelo seu constante apelo a critérios que são extra-jurídicos.»
Eu falei em Contra-Revolução e o Corcunda responde com a teoria política da Idade Média. Ainda que essa época possa ser uma espécie de “nec plus ultra” para os contra-revolucionários, a verdade é que estes se situam num outro tempo e confrontados com outra realidade, mesmo no que concerne aos conceitos políticos, porque o contra-revolucionário existe depois do triunfo da Revolução. O que o Corcunda escreve não nega em nada o que eu disse, porque para o efeito é redundante saber se a inspiração medieval do contra-revolucionário apela a supostos critérios extra-juridicos. A questão é que se a Contra-Revolução coloca o Estado, ou o jurídico, ao serviço desse pretenso extra-jurídico isso não altera o facto de ser esse jurídico, essa realidade contratual delimitada pelo Rei ou pelo Estado, aquilo que ele considera Nação.
« A comunidade jurídica deve existir porque serve finalidades que são maiores que a própria e o Direito serve para as proteger. Ninguém diz “defende o teu Rei ou o teu país porque eles são o teu Rei e o teu país”, mas tenta munir o homem de critérios para que encontre a acção justa (saber que Rei servir vem da capacidade de compreender a melhor ordem política). Ora quem usa esse argumento são precisamente os defensores da modernidade que dizem “o que é justo é aquilo que a comunidade ou o Rei te dizem”. Muitos até dizem que isso é ser contra o “abstracionismo universalista”...»
Antes de mais impor-se-ia saber quem é que determina que a comunidade só deve existir se servir finalidades maiores que a própria, e que finalidades são essas… Por outro lado, não é verdade que o nacionalismo defina o que é justo por aquilo que o Rei ou o Estado determinam, e já o explicámos atrás, porque, se assim fosse, ao nacionalismo não seria possível declarar o Estado ou o Rei como adversos. Mas a questão é mais vasta, porque até agora explicámos que esse confronto com o Estado seria despoletado pela acção deste contra a identidade nacional. Ora, é claro que os critérios de justiça existem para além dessa situação, portanto o fundamental é compreender que a ideia do que é justo dispensa os tais “valores exteriores” bíblicos a que o Corcunda a pretende amarrar, e negar isso é inaceitável, pois significa colocar um risco por cima das raízes da Europa, que se prolongam por todo o mundo indo-europeu até à Antiguidade Clássica. É ignorar que antes do surgimento de qualquer cristão já a Europa pensava o bom, o belo e o justo, e em função disso organizava as suas comunidades, mas pensava-os a partir de um critério que não é Revelado, porque isso é uma tradição forânea ao espírito europeu.
«Todos percebem o que o autor quer com isto e a confusão desemboca onde todos (menos o autor do escrito) já perceberam irá dar. Se o “verdadeiro nacionalismo” está acima da especulação, não se percebe qual é o critério acima do jurídico ( que expressa a vontade da comunidade) que poderá ser “histórico e étnico”. Há uma inconsistência grave e elementar em todos os que dizem que a comunidade é o critério e depois desatam a dar-lhe os seus critérios. Se assim fosse, não deveria o RNP aceitar os critérios que lhe são dados pela presente comunidade e aceitar as suas leis (a imigração p.ex.)? A não ser que se encontre inserido noutra comunidade, mas isso de comunidades imaginadas é um instrumento de poder, como dizia o Anderson. Habitar comunidades imaginadas e falar contra a abstracção é caso estranho.»
Porque a Nação é um dado histórico e étnico ela distingue-se do jurídico. O jurídico, que é de facto expressão de uma vontade, deve servir, na forma nacionalista, a necessária preservação da identidade nacional e o aperfeiçoamento da Nação. Assim, é evidente que o nacionalismo não poderia aceitar os critérios dados pela presente comunidade política, porque eles, logo à partida, são atentatórios da própria defesa da estirpe (pela imigração, por exemplo).
Note-se que a forma como eu e o Corcunda nos colocamos perante o Estado é perfeitamente reveladora do que ambos somos politicamente:
Para o Corcunda este Estado é indigno porque não se encontra ao serviço dos tais "valores externos" e do seu projecto de universalização. O que o Corcunda rejeita não é a coincidência da Nação com a comunidade política delineada pelo Estado, mas sim a falta de sentido em que o Estado vive mergulhado por não obedecer ao seu “critério exterior”.
Para mim, este Estado é indigno porque não está ordenado a partir do princípio de salvaguarda e elevação da identidade nacional, que é o princípio que legitima os Estados que são boa expressão das Nações. O Estado não é algo de irrelevante para a Nação, é uma entidade diferente, e que, quando saudável, tem um importante papel de reforço da consciência que a Nação tem de si, mas precisamente porque são entidades diferentes, a defesa da Nação pode exigir a refundação do Estado - da mesma forma que o sucesso do Estado anti-nacional pode depender da destruição da identidade étnica da comunidade.
Rodrigo N.P.
bf_europa@yahoo.com
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Resistir ao poder do dinheiro
"O carlismo popular sob a monarquia burguesa, a tentação cesarista sob o Império, a agitação boulangista e nacionalista ao virar do século, a Acção Francesa nos seus inícios, o «socialismo fascista» no entre-guerras, o gaulismo no pós-guerra, como algumas alianças eleitorais do tempo presente, demonstram-no: O encontro de uma parte do mundo do trabalho com a tradição nacional populista, mesmo se parcial e mais ou menos efémero, não o é menos uma realidade recorrente da França e da Europa contemporâneas. A chave desta realidade reside em boa medida na aptidão do socialismo nacional para descrever e denunciar sem complacência a maldição do Ouro, a punição dos invejosos, a corrupção dos valores, a folia dos medíocres, o ridículo e o egoísmo sórdido dos novos ricos. «Resistimos ao poder do dinheiro pelo que temos de tradicional, enquanto filhos de uma raça, crentes de uma religião, homens de uma terra, artistas ignorados – escreve Abel Bonnard. É por isso que os financeiros detestam instintivamente tudo o que impede os homens de serem absolutamente iguais. Eles não queriam estar preocupados senão com a vaidade humana».
Para Proudhon, Sorel, Péguy, a predominância das ideias económicas tem por efeito não somente obscurecer a lei moral, mas também corromper os princípios políticos. O respeito pelos anciãos, pelos pais, pelos filhos, pela mulher, pela família, pelo trabalho, pela pátria, por si mesmo, o respeito por tudo o que é superior, pelas tradições, o sentimento dominador do sacrifício pela família e pela comunidade, estão no centro das suas preocupações. Para eles o verdadeiro socialismo não é a escola da pequena felicidade burguesa, mas uma conduta de vida, uma forma de reencontrar o sentido da honra, da nobreza de alma, do heroísmo e do sublime."
Arnaud Imatz
in "Par delà droite et gauche. Permanence et évolution des idéaux et des valeurs non conformes", Paris, Godefroy de Bouillon, 1996
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Só os criminosos sabem fazer amor
É preciso ser sincera: mas existe em circulação uma só, digo uma mulher, que ache atraente um macho (ou será mais apropriado, aqui, dizer um “homem”) que não perca uma boa ocasião para provocar e experimentar uma comoção proclamando-se promotor do respeito pelos direitos humanos? Se me encontrassem uma das minhas congéneres disposta a jurar-me e a provar-me (com a mão sobre a consciência) que sente desejo por um pacifista não hesitarei em pronunciar os votos (sublimando por fim a minha particular paixão pelo isolamento naqueles extenuados paraísos da perversão que são os lugares de fé).
Erro se aposto que um bom número de casos de disfuncionalidades sexuais seriam exorcizadas simplesmente mudando a forma de governo? Ou, pelo menos, impedindo-a de impor a todos a mistela retórico-sentimental do bom coração, dos bons sentimentos, da piedade, da solidariedade, e o sórdido pranto de que somos todos – os deformados e os rectos, os belos e os feios – iguais? É irrealista insinuar que, para além do culto do orgulhoso e do forte, estes tempos estão também a destruir a linfa erótica, o élan do desejo? Mas que apelo poderá alguma vez gabar-se de exercer um bípede empenhado em missões humanitárias? Talvez um pouco, se está de hábito clerical, beneficiando daquele ímpeto de profanação no qual o animal homem tanto se exalta… O infame Catilina deixou-nos com estes hinos: "incendium meum ruina exstinguam": "extinguirei o meu incêndio na ruína”. (…) E as mulheres desesperam e vestem o fato para extinguir o seu incêndio na carreira. E a polaridade entre os géneros – geradora daquelas cargas e descargas que dão as asas ao homem, que fazem dele montanha e dela abismo – torna-se cada vez mais rara (e subitamente os gay a aproveitarem para o seu ridículo orgulho público de legitimação, que sacia o vício que desde há milénios escondiam e cultivavam). Como sentiu com justiça e tão profundamente aquela senhora da república calvinista de Genebra que encerrou a questão sentenciando: "só os criminosos sabem fazer amor"!
Anna K. Valerio
(Traduzido por Rodrigo N.P.)
terça-feira, 24 de junho de 2008
E no princípio foi o verbo ...
"Já se percebe com que facilidade o modo de valoração sacerdotal pode derivar daquele cavalheiresco-aristocrático e depois desenvolver-se em seu oposto; em especial, isso ocorre quando a casta dos sacerdotes e a dos guerreiros se confrontam ciumentamente, e não entram em acordo quanto às suas estimativas. Os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos têm como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve à sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma actividade robusta, livre, contente.
O modo de valoração nobre-sacerdotal - já o vimos - tem outros pressupostos: para ele a guerra é mau negócio! Os sacerdotes são, como sabemos, os mais terríveis inimigos – por quê? Porque são os mais impotentes. Na sua impotência, o ódio toma proporções monstruosas e sinistras, torna-se a coisa mais espiritual e venenosa. Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito - comparado ao espírito da vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece.
A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhe trouxeram - tomemos logo o exemplo maior. Nada do que na terra se fez contra "os nobres", "os poderosos", "os senhores", "os donos do poder", é remotamente comparável ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração dos valores deles, ou seja, por um acto da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que, com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais fundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, "os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados!...".
Sabe-se quem colheu a herança dessa tresvaloração judaica... A propósito da tremenda, desmesuradamente fatídica iniciativa que ofereceram os judeus, com essa mais radical das declarações de guerra, recordo a conclusão a que cheguei num outro momento (Além do bem e do mal, § 195) - de que com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa..."
Friedrich Nietzsche
in "A Genealogia da Moral", 1º ensaio – capítulo VII
(Rodrigo N.P.)
domingo, 22 de junho de 2008
Recordando Jean Cau
Esta semana passou mais um aniversário da morte do grande escritor francês Jean Cau (08/07/1925 – 18/06/1993), prémio Goncourt em 1961, com La Pitié de Dieu . De antigo assistente de Sartre e grande esperança da esquerda bem-pensante fará um percurso intelectual que o levará a uma certa direita de valores duros e politicamente incorrectos e lhe valerá a eterna condenação da “respeitável” cena intelectual francesa. Recordamos hoje, numa pequena homenagem, um excerto de uma entrevista dada por Cau a Jacques Vanden Bemden, que constitui um retrato delicioso do esquerdismo e da sua “passagem-de-idade”. (Rodrigo N.P.)
«As minhas origens são humildes. O meu pai era operário e a minha mãe mulher-a-dias e creio que em Paris eu era uma ave extraordinariamente rara que se deveria colocar numa gaiola e mostrar nas feiras: o único intelectual com origens verdadeiramente proletárias, cujo pai não é general, professor, notário, médico, director de jornal, pequeno burguês ou o que quiserem. Fiz os meus estudos no seio de um ambiente extremamente rude. Os meus avós nem sequer falavam francês, falavam a língua occitana. Do mesmo modo, quando era criança, adolescente, os meus pais falavam entre si na língua occitana, por fidelidade à sua terra, às suas origens, à sua raça, às suas infâncias. Na família éramos um pouco os sicilianos da França, como os sicilianos de Nova Iorque cujos pais e avós continuam a falar siciliano enquanto os filhos falam inglês.
Portanto, cresci num ambiente pobre, popular. Quando era um miúdo pequeno houve o Front Populaire que foi, como sabe, a grande exaltação da esquerda, e no meio onde vivia aparecia como uma espécie de aurora. Depois, quando me estou a tornar rapaz, surge a guerra, e está fora de questão, na minha família, no meu meio, ter qualquer simpatia que seja pelos alemães e pela ocupação, tal como pelo governo de Vichy. E passo esses anos submergido num meio onde as palavras de ordem de resistência e, simplifiquemos, as palavras de ordem de esquerda, dominam os espíritos. Vem a libertação na qual sucumbe a direita, identificada com Vichy, Pétain, Darlan e mesmo o nazismo.
Quanto a mim decido preparar-me para o ensino superior porque não sabia fazer mais nada do que falar e escrever o Francês e desenrascar-me um pouco em Latim e Grego. E vejo-me em Paris, em Louis-le-Grand, num meio que me é totalmente estrangeiro, já que 99,9% dos alunos eram filhos de pequenos burgueses que cultivavam um sentido particularmente gratuito das ideias que eu não tinha. Eu era um meridional exigente, bastante seco, bastante duro, e acreditava em certas ideias, certos mitos, certos valores.
Mais tarde encontro Sartre, torno-me seu assistente e dou por mim envolvido nas secções da Intelligentsia francesa e descubro, não sem algum espanto, que todos esses intelectuais eram de origem burguesa mas adoravam o povo e a esquerda. Aí tens, disse para mim, que boa surpresa! Estas pessoas nunca viram um operário na vida, têm empregadas domésticas e criadas, mas são de esquerda. Era perfeito, mas olhava tudo aquilo com um olhar bastante crítico e mesmo bastante trocista. Ainda que tenha sido um intelectual de esquerda durante esses anos, fui um intelectual de esquerda curioso, céptico, em alerta e com um enorme sentido de ironia.
E depois, pouco a pouco, vi de que era feita essa espécie de idealismo. Duma enorme ingenuidade e mais ainda ao nível dos indivíduos, dos meus confrades intelectuais, romancistas, filósofos, etc., tratava-se de uma liquidação da sua própria infância e as explicações da sua adesão à esquerda teriam perfeitamente lugar num manual de freudianismo para uso das populações subdesenvolvidas. Liquidavam a sua classe social, a sua família, o seu passado, de que tinham vergonha e que lhes pesava. Sucintamente, a sua escolha era autenticamente neurótica e dirigiam-se ao povo mais por ódio à sua classe social, ódio à sua família, por rejeição do seu meio de origem, do que por uma adesão profunda, verdadeira, viva. Dirigiam-se ao povo porque não provinham de lá. Eu, por que deveria fazê-lo se vinha de lá e conhecia esse povo, amava-o e pertencia-lhe.(…)»
terça-feira, 17 de junho de 2008
Ousar!
(Umberto Boccioni, "Carga dos Lanceiros")«Segundo o célebre verso de Hölderlin “estamos na Meia-noite do mundo” e quando o sol se levantar a manhã deverá pertencer-nos. Giorgio Locchi dizia o mesmo: vivemos o Interregno, entre o desmoronar de um sistema e a construção do novo universo que será metamórfico. É portanto urgente construir uma concepção do mundo que constitua o denominador comum da nossa corrente de pensamento, à escala europeia, e que, face à emergência, supere as disputas secundárias de doutrina ou sensibilidade. A noção de arqueofuturismo pode ajudar-nos. Como já profetizava Nietzsche: «O homem do futuro será o que tiver a mais longa memória».
Permaneço sempre fiel ao conceito global de “nacionalismo”, mas entendido na sua dimensão continental, europeia, e não o hexagonal herdado da discutível filosofia da Revolução Francesa. Hoje, ser nacionalista significa dar de novo a este conceito o seu significado etimológico original: “defender os nativos de um mesmo povo”. Isto pressupõe a ruptura com a noção tradicional, herdada da filosofia igualitária das Luzes, de nação e cidadania. Ser nacionalista hoje significa abrir-se à dimensão de um “povo europeu” que existe, está ameaçado mas não está ainda politicamente organizado para defender-se. Pode ser-se “patriota”, ligado à própria pátria sub-continental, sem, porém, esquecer que essa é parte orgânica e vital do povo comum cujo território natural e histórico, cuja fortaleza, direi, se estende de Brest ao estreito de Bering. É verdade que a Europa actual, esta “coisa”, deve ser combatida na sua forma, mas a tendência histórica dos povos europeus a reunir-se frente à adversidade deve ser defendida até ao fundo.
Algumas das minhas posições neste livro, a favor dos Estados Unidos da Europa ou da Federação Euro-siberiana, poderão, talvez, chocar alguns. Mas que fique claro: não sou um partidário da Europa invertebrada do Tratado de Amesterdão, nem um inimigo da França ou de qualquer outra pátria europeia. Mais uma vez proponho pistas, provoco rupturas, para criar um debate, esforço-me por indicar “linhas de valor”, mas em nenhum caso proponho uma doutrina fechada. A juventude europeia, a verdadeira, exige ideias novas à altura dos perigos iminentes, não fantasias ou choradinhos humanitaristas num clima de censura e repressão sofisticada. A “geração Miterrand” (NdT: nós diríamos “geração Soares”) está morta, submersa pelo ridículo e paralisada pelo fracasso. Agora é preciso que surja a geração dissidente. Cabe a essa imaginar o inimaginável.»
Guillaume Faye
in "L’Archeofuturisme" (traduzido por Rodrigo N.P.)
domingo, 15 de junho de 2008
Sobre o referendo irlandês ao Tratado de Lisboa
Ao recusar o Tratado de Lisboa a Irlanda prestou, pelo menos momentaneamente, um bom serviço à Europa. A responsabilidade que tinha em mãos era histórica. Depois de ter sido rejeitada por 2 vezes, na França e na Holanda, as oligarquias políticas europeias, armadas da habitual canalhice, decidiram sujeitar a Constituição Europeia a pequenas alterações de modo a poderem implementá-la sob um outro nome, uma outra aparência que escondia a mesma substância.
Lisboa foi então designada palco da encenação dessa farsa. Orgulhosa de fazer, como habitualmente, o papel de burra (aparentemente as boas lições nunca as aprende, como revelam todos os indicadores socio-económicos) mas obediente, a classe política portuguesa, e os seus jornalistas, rebolaram de regozijo com as festas e encómios dessa “União Europeia” que lhes define o norte e o sentido. “Muito Bem”! – Disseram-lhes, e eles, patéticos, apressaram-se a elogiar o desempenho do homem que, armado do digníssimo título de primeiro-ministro, a representou (à classe política portuguesa, entenda-se).
Orgulhoso do serviço, o funcionário português desses novos poderes globais, ainda animado pelos elogios e crente num triunfo do “sim” irlandês, não se fez rogado e anunciou mesmo em plena Assembleia da República o quão importante era para a sua carreira a aprovação daquele Tratado. Ah, estes políticos modernos, sempre preocupados com as causas mais elevadas!
O plano era perfeito. A farsa seria ratificada em sede parlamentar, livre dos humores da população, e pronto… e todos cumpriram a sua parte, todos menos os irlandeses. Não é que a classe política deles tivesse outra verticalidade, o problema é que estava obrigada pela própria lei interna a referendar o Tratado. Coitados, os ingénuos não encontraram forma de contornar esse detalhe, lamentável, sem dúvida, pensarão agora os políticos europeus. Se ao menos o referendo fosse uma questão de promessa política, como noutras latitudes mais ibéricas, teria sido mais fácil… mas o raio da lei…
Era só um referendo! Só um! O Tratado fora ratificado, à revelia dos povos da Europa, em todos os Parlamentos por onde passara. Bastou uma única consulta popular para ser recusado. Tal como o documento anterior, sob a designação de Constituição Europeia, havia passado nos parlamentos e chumbado entre os povos!
Motivações Diferentes
As motivações por detrás do “não” do povo irlandês foram diversas e contraditórias entre si. Uns votaram assim por razões identitárias e nacionalistas, outros em defesa de valores conservadores e cristãos, outros por acharem que o tratado configurava um ataque à sua ideia de Estado-previdência e outros ainda por temerem um potencial aumento da carga fiscal e do peso do Estado na vida irlandesa. Havia, portanto, de tudo, e sensibilidades que nunca poderiam chegar a um entendimento político que não fosse de tipo “negativo”, no sentido de estar “contra algo”, ou seja, poderiam, como o fizeram, somar votos entre si, mas não construir qualquer projecto em conjunto pela ausência de princípios comuns.
Contudo, no lado do "sim" sucedeu o mesmo, e aí ficaram também as gentes mais influenciáveis pelas ideias dominantes e as que têm menos interesse pelo fenómeno político. A argumentação do lado do "sim", na boca do cidadão comum, foi sempre um acervo de clichés e de generalidades entediantes.
A nossa motivação
O nosso “não”, se o tivéssemos podido expressar, assentaria precisamente na nossa “europeidade”. Podendo parecer contraditório, não o é! Fazendo nossa aquela imagem-guia que descobrimos em Jean Mabire, diremos que temos duas nações, a nossa nação original é a Europa e dentro dela, a uma outra escala, numa relação de complementaridade, a nossa nação é aquela que se projectou do encontro dos celtas e dos iberos, com outros povos indo-europeus, no extremo ocidental da Europa, para o futuro, numa corrente histórica que se mantém ligada por essa referência mítica primordial (a nossa especificidade face aos povos irmãos acabou por ser delineada por aqueles aspectos histórico-culturais que nos são próprios, como, a título meramente exemplar, a língua).
Portanto, é por fidelidade à Europa-Mãe que não podemos deixar de denunciar este Tratado como expressão da anti-Europa. Os defeitos que ali encontramos são os mesmos que encontrámos no texto da Constituição Europeia: a imposição dos valores humanitário-universalistas como definição do projecto europeu e a pretensão messiânica e proselitista – que está sempre presente naquilo que, convencido da sua superioridade moral, tem aspiração à universalidade – concretizada no objectivo de “promoção” dos valores da U.E. em todo o mundo.
Naturalmente, por se tratarem de “valores universais” e que dependem da adesão, eles não podem definir nem a Europa nem o homem europeu. Existirão não-europeus que aderem a eles em contrapartida a europeus que os rejeitam. Daqui decorre o mais inaceitável defeito do Tratado, a completa ausência da afirmação do que é particular da Europa e do europeu, do que é diferenciador face ao estrangeiro, que não dependa da adesão a uma ideologia, que seja material.
Um caso exemplar disso é a ausência da definição concreta das fronteiras geográficas da Europa (que existem no mundo físico, material, e por isso não são uma questão de adesão a “valores”). Ao não delimitar essas fronteiras este Tratado abre as portas à potencial inclusão da Turquia, de Israel, ou mesmo do Magrebe africano.
Uma vitória da democracia?
Podemos considerar, como fizeram a maioria dos partidários do “não”, que esta vitória foi da democracia? Bom, a resposta é mais complexa. Se estamos a falar de democracia-liberal representativa, que é precisamente aquela que o Tratado de Lisboa, com o objectivo de fechar qualquer alternativa, procura definir como caracterizadora da U.E. (cf. artigo 8A), então a única coisa que podemos dizer é que o resultado do referendo constitui para esse modelo uma derrota a toda a linha!
Se estamos a pensar nas formas de democracia orgânica, participativa ou directa, então sim, do ponto de vista meramente institucional tratou-se de uma vitória dessas formas de expressão política, do povo, como dos órgãos e associações da sociedade que existem para lá dos partidos.
Porém, se saímos dessa análise mais formal, a verdade é que aquela vitória, como aliás sucede em todos os combates histórico-políticos, não foi um produto da competência do “Demos” mas do “escol” que lutou do lado do “não” e forneceu a esse “Demos”, a essas massas, a sua argumentação e a sua análise. Na verdade, bastou escutar as justificações desse “Demos” para se perceber isso mesmo. Aqueles “nãos” variados repetiam as frases e as análises que lhes haviam sido emprestadas pelas "minorias mais capazes" que se colocaram no seu campo. Goste-se ou não, foi essa “aristocracia”, essas minorias, as únicas a ler, analisar e reflectir sobre o documento, entre o “Demos”, tanto no campo do “sim” como do “não”, o Tratado não foi lido nem foram compreendidas as suas consequências. Aqueles votos foram sustentados tanto sobre a argumentação disponibilizada pelas “melhores minorias” de cada um dos lados, como sobre uma intuição própria, mais abrangente, da construção europeia, pouco dependente do objecto concreto que estava a votação, no caso o Tratado de Lisboa.
Embora saibamos valorizar na ordem política essas apreensões mais intuitivas da realidade, que constituem muitas vezes a melhor defesa contra as deturpações elaboradas mas artificiais do mundo, não podemos deixar de dizer que a leitura efectiva do Tratado era condição sine qua non para se poder falar com propriedade em autoridade do “Demos”.
Assim, como sempre, esse “Demos” não foi mais que o repositório, tornado força-motriz, das ideias que lhe vieram de cima. Uma negação importante do princípio democratista.
Vale a pena realçar que este resultado representa também uma derrota da asfixiante presença da partidocracia em toda a vida das sociedades ocidentais, porque, há que relembrá-lo, a quase totalidade dos partidos políticos irlandeses colocou-se do lado do “sim”.
Os modelos democráticos e o dinheiro
Por outro lado, este referendo constituiu mais uma demonstração da relação de enorme proximidade entre os modelos democráticos e o dinheiro, e não há quem tenha coragem de corrigir essa perversidade. Como a democracia se exprime pelo triunfo de posições difundidas por “elites” sobre as massas, ou seja, pela capacidade dessas posições serem aceites entre a população, ela surge muito dependente do poder financeiro, porque é ele que paga a difusão das mensagens propagandísticas que decidem os votos do “Demos”.
O “não” na Irlanda só pôde competir contra os partidos e os grandes interesses que lhes estão subjacentes porque beneficiou do dinheiro de alguns multimilionários (sendo o caso mais mediático o de Declan Ganley e da organização que liderava, a “Libertas”) apostados em rejeitar o Tratado; dinheiro esse que permitiu o acesso das ideias-chave do “não” aos órgãos de comunicação social, fora dos quais não existe realidade para a maioria das pessoas, bem como o espalhar dessas ideias pelas ruas do país…
E agora?
De qualquer forma, ainda que conscientes de que este “não” tem muitos “nãos” opostos, conscientes de que o voto foi, em muitos casos, ditado por interpretações duvidosas ou simplistas do Tratado, congratulamo-nos com o resultado.
Mas não entramos em euforia, as reacções das principais figuras da U.E. ao resultado mostraram que o tacticismo pouco ético próprio do aparelho político europeu está para continuar. A chantagem política sobre o povo irlandês já começou e, provavelmente, irá em crescendo nos próximos tempos. As afirmações de que, independentemente daquele desfecho, o Tratado deve avançar, são sinal mais que evidente para concluirmos que, uma vez mais, os funcionários políticos que na Europa se encontram ao serviço dessa ordem político-financeira global e destruidora das pátrias, não estão dispostos a parar perante nada.
Aparentemente, nem perante os próprios “valores universais” que afirmam seus. É que, ironicamente, o desrespeito manifesto pela decisão irlandesa é em si a negação das tais ideias com que, na incapacidade de afirmarem a defesa da identidade da Europa e os seus limites materiais, pretenderam caracterizar o seu projecto político. O Tratado de Lisboa introduz no Preâmbulo do Tratado da U.E. o seguinte (confirmar também o artigo 1A):
«Inspirando-se no património cultural, religioso e humanista da Europa, de que
emanaram os valores universais que são os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana, bem como a liberdade, a democracia, a igualdade e o Estado de direito»
Que liberdade é a deles? A que nega aos homens e mulheres da Europa a possibilidade de decidirem sobre o seu futuro, como sucedeu na maior parte dos Estados? A que lhes dá essa possibilidade mas sob ameaça de que, caso o exercício dessa sua liberdade não seja de acordo ao pretendido, serão penalizados?
Que igualdade é a deles? A que faz com que uns poucos funcionários medíocres que nada provaram na vida decidam em sedes parlamentares ou em pequenas reuniões sobre a vida de milhões dos seus compatriotas?
Que democracia é a deles? A que rejeita os resultados do jogo democrático quando esses não são os “seus”?
E sobretudo, que Estado de Direito é o deles que faz avançar um tratado quando o Direito diz que a sua rejeição por um dos Estados-membros impede a sua implementação?
Rodrigo N.P.
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sábado, 7 de junho de 2008
A Revolução contra a Contra-Revolução
De cada vez que a intelectualidade direitista contra-revolucionária se põe a reflectir sobre a direita, o que o termo significa e como agir politicamente em coerência, seja no quadro partidário ou cultural, podemos estar seguros de que pelo menos uma coisa acontecerá: o nacionalismo será trazido para a conversa.
Ora, o facto em si, a nós que nos consideramos parte da “área nacional”, não sendo agradável, também não é estranho: já ouvimos gente de praticamente todos os quadrantes políticos dizer-se, em dado momento, nacionalista. Partindo daí, poder-se-ia pensar que o facto da direita messiânica aparecer também no pagode não faria grande diferença nem seria de levar muito a sério…
No fundo, a explicação para isso é simples. Trata-se de um problema de entendimento do conceito, em primeiro lugar, e da hierarquização que dele se faz na escala política, em segundo lugar.
Quero eu com isto dizer que aquilo a que a maior parte daquelas pessoas chama nacionalismo, não o é! Eles estão-se a referir, isso sim, a um sentimento de preferência e afeição pelo Estado onde nasceram, que é um sentimento natural e comum à maioria das pessoas. Mas Estado e Nação são dois conceitos distintos – o primeiro de substância jurídica ou contratual, o segundo de substância histórica e étnica – e quem não compreende as implicações profundas dessa diferença não podemos, pura e simplesmente, considerar nacionalista.
Ora, posto isto, há de facto uma diferença entre aquelas declarações que ocasionalmente ouvimos a pessoas das mais diferentes sensibilidades políticas e as que provêm daquela direita a quem o Ancien Régime enche as medidas ou, pelo menos, é simpático.
Uns como outros têm um entendimento incorrecto do conceito de Nação e, curiosamente, uns como outros têm significativas dificuldades em distinguir entre a Nação real e aquilo que o Estado – ou o Rei – agrega, mesmo se a isso chamam depois nação.
A diferença é que enquanto nuns esse sentimento a que eles por vezes chamam nacionalismo não é mais que a espontânea e vulgaríssima expressão de afeição pelo seu Estado/País, sem que daí se retirem verdadeiramente implicações políticas, nos outros a interpretação errada do conceito acaba por ter muitas vezes um papel importante no seu próprio projecto político. Ou seja, nuns trata-se de uma afirmação de ocasião, meramente acessória na hierarquia das outras crenças, e sem implicações políticas para a sua visão da sociedade, naquela direita trata-se de uma ideia com relevância para a actuação política e por vezes chega mesmo a defini-la, intervalando com afirmações de conservadorismo ou tradicionalismo. Portanto, se nos primeiros a confusão não nos desperta mais que relativa indiferença, porque não se cruzam connosco, nos segundos aquela deturpação, pelo papel hierárquico que lhe entregam para desempenhar, acaba por cruzar o nosso caminho, minando-o.
Daqui resulta que, ao contrário do que certamente preferiríamos, é preciso, de facto, disparar também dentro da trincheira em que nos encontramos. É que a nossa trincheira não foi exactamente escolhida por nós – nem pelos outros que cá estão, aliás – foi onde, por força de circunstâncias várias, viemos todos parar, e agora encontramo-nos a partilhar o espaço com quem se orienta por uma “linguagem” antagónica à nossa. Dando aos conceitos um outro sentido, o seu projecto é negação do que fomos, somos e do que pretendemos vir a ser (para usar uma reminiscência heideggeriana).
Ora, o caso é tanto mais interessante quanto na nossa trincheira teriam lugar, com muito mais propriedade, homens e mulheres de quem a aceitação da “linguagem” que triunfou na História, com os seus conceitos, as suas relações de proximidade e distanciamento, as suas direitas e esquerdas, os seus centros e extremos, nos afastou.
Mas essa “linguagem” só faz sentido a partir de um princípio ordenador.
O princípio que é preciso romper, e de onde provém essa “linguagem”, com as suas lógicas de afinidade e oposição, as suas direitas e esquerdas, os seus centros e extremos, é o do indivíduo universal a percorrer uma temporalidade que deverá findar na sua salvação (a salvação num outro mundo, neste mundo pela igualdade entre iguais ou neste mundo pela liberdade entre os livres, conforme esse princípio seja interpretado por cristãos, marxistas ou liberais, respectivamente).
Contra isso a “área nacional” deverá afirmar o seu homem concreto, livre das abstracções universalistas, numa História em permanente abertura. Daí decorre naturalmente uma outra “linguagem” que permitirá ultrapassar as divergências e convergências que não lhe pertencem, chamar-se-ão os soldados desavindos e identificar-se-á o “estrangeiro na trincheira”!
Rodrigo N.P.
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domingo, 18 de maio de 2008
Hoje em dia
Dir-se-ia que isto de fazer prova de se ser uma pessoa do seu tempo e muito moderna é, inequivocamente, algo de muito positivo, pois que é progressista e constitui o repúdio de tudo o que é passadista e reaccionário, e portanto “mau”. E além do mais vemo-lo por todo o lado, na televisão (e como sabemos, se aparece na televisão…), no parlamento, no emprego, no restaurante, no bar, na rua, ser “moderno”, ser um “homem – ou mulher – do seu tempo” é que é digno de todos os encómios…
Quando se discute algo, dizer que “hoje em dia as coisas são assim”, que “os tempos mudaram”, que é “preciso compreender a evolução da sociedade”, que “o outro é retrógrado”, constitui, pelo menos no íntimo de quem o diz, um verdadeiro xeque-mate no debate. Ironicamente, isso também só sucede “hoje em dia”, porque antes de “hoje em dia”, no tal passado reaccionário e obscurantista, que já se perde na memória, ninguém conseguiria pensar em ganhar qualquer debate, ou constranger um adversário ideológico, com o argumento da contemporaneidade da sua posição. Não! Interessaria antes saber da validade, da essência dessa posição, e o que é paradoxal é que quanto menos essa posição fosse de “hoje em dia” (ou melhor, de “então em dia”) maior a probabilidade de se considerar que a sua intemporalidade se pudesse dever à sua validade intrínseca, permitindo-a atravessar as épocas.
Mas “hoje em dia” não! Porque o “hoje em dia” é o tempo da grande vitória da doutrina do progresso, que interpreta a humanidade, os valores e a História como uma evolução linear em permanente e gradual aperfeiçoamento. Daqui resulta que “hoje em dia” tenhamos, com certeza absoluta, chegado a um estádio filosófico e moral superior ao dos nossos antepassados, em boa verdade estranhas criaturas mal balbuciantes, supersticiosas e preconceituosas. De Platão e Aristóteles a Marx e Adam Smith, uma incontestável ascensão!
A verdade é que ser acusado de retrógrado é muito grave. Retrógrado é um palavrão muito feio para as “pessoas do seu tempo”; pode incidir sobre elas a suspeita de muitas coisas: promiscuidade, corrupção, aldrabice, egoísmo, cobardia, ignorância, porque, apesar de tudo, se se souberem comportar conseguem usar o título com uma certa respeitabilidade contemporânea, agora retrógrado é que não, porque aí não há volta a dar, esses nunca poderão ser modernos!
Rodrigo N.P.




