segunda-feira, 6 de julho de 2009

O cancro suburbano

"Nos anos 80 e 90, assistiu-se nos Estados Unidos a uma conversão de bens públicos em luxos privados, ao empobrecimento do domínio cívico e, para falar com franqueza, à violação da paisagem — um enorme empreendimento entrópico que foi a fase culminante dos subúrbios. O segredo sujo da economia americana dos anos 90 consistia no facto de estar reduzida à criação da expansão suburbana e ao fornecimento, equipamento e financiamento dessa actividade. Assemelhava-se à eficácia do cancro. Nada mais interessava realmente a não ser a construção de habitações suburbanas, a negociação de hipotecas, a venda do grande número de automóveis de que os habitantes precisavam, a transformação das ruas em auto-estradas com toda a infra-estrutura comercial necessária e o transporte de enormes quantidades de mercadoria feita na China, por um preço baixíssimo, para encher estas casas.
A economia de expansão suburbana era uma reacção sistémica e auto-organizada à abundância de petróleo desmesuradamente barato, com uma entropia cada vez maior traduzida numa variedade crescente de manifestações, desde a destruição das terras de cultivo até à decadência das cidades, à depressão psicológica generalizada, aos tiroteios nas escolas, à obesidade epidérmica. Os Americanos não questionavam a validade da economia de expansão suburbana. Aceitavam-na pelo seu valor facial, como a consequência óbvia e lógica das suas expectativas e sonhos, e defendiam-na com unhas e dentes contra as críticas. Ignoraram firmemente a sua característica evidente — o facto de não ter futuro quer enquanto economia, quer enquanto modo de vida. Cada modificação introduzida no sistema suburbano diminuía as suas probabilidades de sobreviver a qualquer mudança nas condições, particularmente no que diz respeito ao petróleo barato."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

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