«Na própria medida em que se sentem ameaçados por tudo o que difere deles, os Estados Unidos aspiram no fundo a um mundo sem inimigos, sem ameaças, o que equivale inevitavelmente a um mundo homogéneo. Pensam que não estarão verdadeiramente em segurança senão quando tudo o que arraigadamente diferente tiver sido eliminado, quer isto dizer assim que o mundo inteiro tiver sido americanizado. O seu unilateralismo, mais ainda que o seu intervencionismo, não se explica de outra forma.»
Alain de Benoist
in «Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra - A actualidade de Carl Schmitt», Antagonista (2009).
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
O Sonho Americano
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Guerra pela humanidade
"A noção de inimigo da humanidade é efectivamente uma contradição nos termos dado que, por definição, a humanidade não pode ter inimigos entre os humanos. É por causa disso que as guerras em nome da humanidade resultam indubitavelmente na negação da qualidade de ser humano ao inimigo: bater-se em nome da humanidade leva necessariamente a pôr os seus inimigos fora da humanidade. Ora, contra aquele que foi posto fora da humanidade, tudo se torna permitido. Desde logo, o inimigo desta não é mais um simples adversário do momento, que poderia de igual forma transformar-se amanhã em aliado, mas uma figura do Mal, um «inimigo do género humano», um criminoso a punir, podendo ser empregues todos os meios que permitam subjugá-lo. (...) Combater em nome da humanidade significa, de facto, colocarmo-nos em posição de decretar quem é humano e quem não o é. Tal é o paradoxo: todo o discurso que pretende apagar as fronteiras entre os homens para estender a noção de «nós» à totalidade da espécie humana resulta na recriação, no próprio seio da humanidade, de uma linha de fractura e de exclusão mais radical do que as outras. «Com efeito não é senão com o homem entendido como humanidade absoluta que surge o inverso desse mesmo conceito, o seu novo inimigo específico, o homem inumano (Unmensch)» escreve Schmitt. A guerra em nome da moral é pois o exemplo acabado da guerra mais inumana. O universalismo abstracto faz dos adversários inimigos absolutos e transforma as guerras «humanitárias» em guerras de extermínio."
Alain de Benoist
in «Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra - A actualidade de Carl Schmitt», Antagonista (2009).
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Novo livro de Alain de Benoist
Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra - a Actualidade de Carl Schmitt
Alain de Benoist
Neste seu trabalho Alain de Benoist contesta radicalmente a legitimidade teórica, política e moral do conceito de “guerra justa”, contra o terrorismo “global”. Demonstra como este pode ser remetido às suas dimensões mais simples e naturais, que permitiriam combatê-lo sem o alimentar. Relaciona-o com o fenómeno, tipicamente moderno, da criminalização do inimigo, segundo a análise de Carl Schmitt, cuja actualidade é apurada por Benoist. O terrorismo, com efeito, não tem apenas raízes islâmicas, mas igualmente ocidentais e até estatais. De facto a “globalização” do terrorismo lembra irresistivelmente as teses de Schmitt na sua Teoria da Guerrilha.
O autor chega à conclusão de que o “globalitarismo” americano contém um perigo mortal para o mundo moderno, ao ocultar a origem do elemento político e conflitual na vida do homem. Consequentemente um planeta “definitivamente pacificado” pela hegemonia “benévola” dos Estados Unidos da América pode vir a produzir uma guerra civil mundial sem fim e de proporções catastróficas.
Fonte: Antagonista Editora
domingo, 31 de maio de 2009
Os homens entre si
"Com os clubes e as «sociedades secretas», afirma Lionel Tiger, «os homens fazm a corte aos homens». As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as «cerimónias de iniciação», por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se«adulto» quando se detémo conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre «iniciados». Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.
(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve «dar o braço a torcer». Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu «orgulho». Ela acusa-o de correr atrás de «quimeras», e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é «razoável».
No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado e inspirar o futuro.
Montherlant dizia que «um homem sem criancices é um monstro horrível». Nietzche, ao contrário, propunha «pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo» — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade.
As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».
O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.»
Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Entrevista a Alain de Benoist (3/3)
(Última parte de uma entrevista original do blogue Dissonance)
É tido como uma referência da geopolítica, nomeadamente junto do movimento eurasiático de Aleksandr Dugin, que é bastante elogioso a seu respeito. Podemos falar disso? O que pensa que as teorias Eurasiáticas podem trazer à Europa e a França?
Tenho grande amizade e admiração por Aleksandr Dugin, pela sua cultura, a sua coragem, a sua capacidade de trabalho, a amplitude da sua obra e a grande continuidade dos seus esforços. Deve-se-lhe a actualização do pensamento dos primeiros teóricos eurasiáticos e de ter demonstrado a actualidade dessa linha de pensamento. Soube também confrontar, para fazer uma síntese sugestiva, acervos ideológicos por vezes diferentes. Deu à geopolítica uma dimensão espiritual que lhe faltava. Sigo o seu trabalho com muita atenção. Quanto às teorias eurasiáticas, podem trazer muito, não só à Europa e à França, mas também aos habitantes de outros continentes, se considerarmos que para além da Eurásia geográfica, permite encarar um novo "Nomos da Terra" constituído segundo a ideia de diversidade, autonomia dos povos, democracia participativa e primazia dos valores não comerciais.
Para os franceses e europeus, as grandes preocupações do futuro são a plausível liderança económica da China e a explosão demográfica das populações muçulmanas, nomeadamente no interior da Europa. De que forma analisa a (in)compatibilidade destes elementos?
A China foi obviamente chamada a desempenhar um papel de primeiro plano no século XXI, mas é demasiado cedo para dizer que exercerá uma verdadeira "liderança económica". A China inscreve tradicionalmente a sua acção num quadro a longo prazo. O seu modelo não está isento de contradições, e deverá debater-se com numerosas dificuldades interiores (não serão apenas as disparidades entre as suas regiões e os seus meios sociais). No plano geoestratégico, espero ver a China associada ao continente euroasiático, mas ignoro a sua tendência natural ao "auto centrismo". No que diz respeito aos Estados Unidos, parecem hesitar entre diversas atitudes possíveis. Quanto à explosão das populações muçulmanas, é um facto real, mas que não deve ser sobrevalorizado. Na Europa, no espaço de uma ou duas gerações, os imigrantes adoptam os comportamentos demográficos locais. À excepção da África negra e da zona indo-paquistanesa, o crescimento demográfico tem vindo a abrandar um pouco por toda a parte. O verdadeiro problema está relacionado com a baixa natalidade dos países europeus, que cria uma baixa de pressão e se traduz por um envelhecimento da população.
Foi, durante muito tempo, uma das pontas-de-lança do GRECE. Que é feito do grupo actualmente?
O Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia (GRECE) é uma associação cultural criada em 1969. Participei regularmente nas suas actividades, mas nunca ocupei um cargo dirigente. A associação continua actualmente o seu trabalho, em ligação com diversas universidades e intelectuais europeus.
Questão de ficção científica: como imagina o futuro do continente (Europa e Rússia) em... digamos, 2020?
Não é a minha tarefa prever o futuro, e não tenho imaginação para especular onde estarão a Europa e a Rússia em 2020. A história está sempre aberta, o que não significa que tudo seja possível. Naturalmente, é possível fazer cenários, mas a dificuldade começa quando queremos atribuir-lhes um coeficiente de probabilidade.
No último 24 de Março, registou-se o aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia. Há um ano, o Kosovo "tornou-se" um Estado independente. O que tem a dizer sobre estes acontecimentos? Qual é, a seu ver, o futuro do Kosovo?
O aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia desperta em mim a lembrança de uma grande cólera e de uma terrível humilhação. Cólera diante do dilúvio de contra-verdades e de mensagens difamatórias que então foram transmitidas pela imprensa ocidental contra o povo sérvio, humilhação de ter assistido ao primeiro bombardeamento de uma capital europeia pelos americanos desde o fim da última Guerra Mundial. A Europa revelou nessa ocasião uma triste verdade: impotente, quase paralisada, sem qualquer consciência dos desafios globais, objecto da história dos outros em vez de sujeito da sua própria história. Quanto ao Kosovo, observo que a sua proclamação de independência foi apoiada pelas mesmas potências que se recusaram a reconhecer a independência da Abkhazia ou da Ossétia do Sul: a Geórgia teve direito ao respeito da sua "integridade territorial", enquanto a Sérvia não teve esse direito. Isso dá uma ideia da lógica que prevalece actualmente na diplomacia internacional. Por agora, o Kosovo parece-me ser o primeiro Estado mafioso da História. Duvido que o seu futuro seja particularmente brilhante.
Poderia aconselhar-nos cinco obras essenciais, e cinco sítios ou blogues a consultar?
Não me sinto muito à vontade no universo dos blogues para recomendar aqueles que serão os melhores. Da mesma forma, sinto-me incapaz de enumerar "cinco obras-chave a ler". Quanto a obras-chave, há pelo menos várias centenas! Recomendo apenas a leitura de obras que ajudem a compreender o momento histórico que vivemos, e por outro lado os grandes clássicos do pensamento político e geopolítico cujos ensinamentos podem ainda ter valor actualmente, de Maquiavel, Hobbes e Rousseau até Max Weber e Carl Schmitt. Por último, sem dúvida por inclinação pessoal, diria que a compreensão das coisas supõe um mínimo de conhecimento filosófico. Heidegger, para dar um exemplo, desempenhou na minha formação um papel que ainda hoje subsiste.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Entrevista a Alain de Benoist (2/3)
(Continuação da edição de uma entrevista original do blogue Dissonance)
Assistimos actualmente no mundo a uma espécie de renascimento de grandes espaços na Ásia (China, Índia), no mundo muçulmano (Turquia, União Pan-Africana), na Eurásia (Rússia), na América do Sul (Brasil, Venezuela). O corolário desse renascimento é o enfraquecimento do império Americano. Segundo este processo, quais as suas previsões para a próxima década? Pensa, como alguns, que existe um risco de "fuga para a frente" (deflagração de guerras) ou, pelo contrário, acha que estamos apenas no início de um processo quase inevitável: o mundo multipolar (caótico ou nem por isso)?
A grande questão passa, de facto, por saber se nos encaminhamos hoje para um mundo unipolar, dominado pela hiperpotência americana, ou para um mundo multipolar, um pluri-versum, articulado, como acabo de dizer, em torno de diversos blocos civilizacionais. Acredito, pessoalmente, que nos dirigimos, felizmente, para um mundo multipolar onde os países emergentes, como a Índia, a China e o Brasil, desempenharão um papel cada vez mais importante. Um tal mundo não será necessariamente instável, já que a ordem geral das coisas não será posta em causa. As leis da geopolítica determinam efectivamente as linhas de fractura e os desafios futuros. O grande conflito é o que opõe, estruturalmente por assim dizer, a potência do Mar (Estados Unidos) e a potência da Terra (o continente euroasiático). Nessa perspectiva, a Rússia desempenha um papel particular, porque corresponde àquilo a que os geopolíticos chamam de Heartland, ou seja, o coração do continente eurasiático.
Paradoxalmente a esse renascimento dos espaços, a Europa parece incapaz de se unir politicamente. As divergências parecem tão fortes que Aleksandr Dugin descreve-as no seu blogue como uma oposição entre a "velha Europa" (continental) e a "nova Europa" (atlantista). Qual a sua opinião?
A impotência da União Europeia não se explica unicamente pela oposição que descreve, apesar de ela ser bem real. Como partidário da construção europeia, não deixo de constatar que a Europa, desde o início, tem sido construída ao contrário da lógica. Tem dado permanentemente prioridade ao comércio e às finanças em vez da política e da cultura. Edificou-se sem legitimidade democrática - sem que algum povo tenha sido consultado - e a partir do alto (a Comissão de Bruxelas, que se autoproclama omnicompetente) em vez de se construir a partir da base, no respeito ao princípio da subsidiariedade (ou das competências suficientes). Em lugar de procurar aprofundar as suas estruturas políticas, preferiu alargar-se apressada e imprudentemente a países que estavam apenas preocupados em beneficiar da estabilidade monetária da União e em colocar-se sob o guarda-chuva americano, aderindo à NATO. Por fim, nunca esclareceu claramente quais os seus objectivos. Trata-se de fazer da Europa um grande mercado de fronteiras abertas, sucedendo-se a integração numa vasta zona de livre comércio euro-atlântico, ou pelo contrário, construir uma Europa-potência verdadeiramente autónoma, cujas fronteiras sejam rigorosamente determinadas pela geopolítica? É evidente que os dois modelos são totalmente opostos.
Têm soado apelos (de movimentos de extrema-esquerda e diversos intelectuais gaullistas) à integração da França na Organização para Cooperação de Xangai (organismo internacional de defesa composto essencialmente por países asiáticos). Na sua posição de crítico do regresso da França ao comando da NATO, que opinião tem sobre este tema?
Não tenho opinião formada sobre esse ponto. A NATO é uma organização defensiva criada no contexto da guerra fria. Não tem qualquer razão de existir após o desmoronamento do sistema soviético. Devia ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia. Em vez disso, essa organização totalmente controlada pelos EUA desenvolveu-se como uma espécie de clube ocidental americano-centrado, com capacidade de intervir em qualquer lugar do globo.
Nesse contexto, a decisão da França de reintegrar as estruturas da NATO, de onde o general De Gaulle a tinha feito sair em 1966, é mais do que uma falta: é ao mesmo tempo uma traição e um crime. Em todo o caso, a participação francesa na Organização para Cooperação de Xangai não é mais que uma hipótese teórica. A questão, neste caso, é saber se o grupo de Xangai tem uma vocação meramente regional, ou mais vasta. O meu desejo seria antes ver constituir-se, inicialmente pelo menos, uma organização europeia de defesa digna desse nome, e como tal, inteiramente independente da NATO. No entanto, neste momento, não é mais do que um desejo vago.
Numa época de crise financeira, todo o mundo diz que "pode ser" que a globalização liberal tenha "estourado", e que o modelo ocidental para a humanidade não é o "melhor". Do seu ponto de vista, "de onde" virão os novos modelos civilizacionais, filosóficos e económicos?
A crise financeira mundial deflagrada nos Estados Unidos no Outono de 2008 abriu sem dúvida os olhos a um certo número de pessoas. Mas essa crise, que está longe de terminada, não será provavelmente suficiente para fazer emergir um sistema alternativo. Os novos modelos surgirão quando o sistema actual estiver verdadeiramente no seu limite, sem que se possa saber especificamente quais as formas que daí surgirão. Ainda que as coisas se possam processar muito rapidamente, há ainda bastante por fazer para "descolonizar" os espíritos, tanto que os contemporâneos tomaram o hábito de viver num sistema da mercadoria, governado pela dialéctica da posse. Toda a modernidade foi tomada pela ideologia do progresso, os recursos naturais foram considerados ao mesmo tempo gratuitos e inesgotáveis, mesmo que não sejam nem uma coisa nem outra. A verdade é que um crescimento material infinito é impossível num mundo finito. Quando o compreenderem plenamente, poderão talvez sair da obsessão económica e dessa ideologia utilitarista que constitui um dos principais corolários do universalismo ocidental (o qual, como qualquer universalismo, não é mais do que um disfarce de etnocentrismo).
sábado, 9 de maio de 2009
Entrevista a Alain de Benoist (1/3)
(Traduzido de uma entrevista original do blogue Dissonance)
Alain de Benoist, bom dia e obrigado por aceitar responder a estas questões. Pode sintetizar o seu percurso muito variado na cena intelectual e filosófica francesa?
Não se resume em algumas linhas um itinerário intelectual de meio século. Sou escritor, jornalista e também filósofo. Tenho bastante obra publicada, tanto em França como no estrangeiro. Dirijo igualmente duas revistas que criei, uma (Nouvelle Ecole) em 1968, a outra (Krisis) em 1988. Os meus domínios preferenciais são a história das ideias e a filosofia política. Não pertenço a qualquer partido ou movimento político, e não desejo pertencer a nenhum. Na época de transição que constitui o nosso actual horizonte, tento desempenhar da melhor forma possível o papel que todo o intelectual digno do seu nome deve assumir: compreender e fazer compreender melhor o mundo em que vivemos.
Qual é a sua opinião acerca do actual panorama políticoa francêsa? Thierry Meyssan afirmou recentemente numa entrevista que "Sarkozy não é de direita nem de esquerda, mas queria fazer como os yankees". Pensa que o futuro político das sociais-democracias europeias passa pelo modelo americano, do tipo "dois candidatos eleitos em primárias (ilusão de democracia) que defendem globalmente as mesmas ideias"?
Que os candidatos se apresentem às eleições sejam ou não designados previamente pelas «primárias», parece-me um detalhe completamente desprezável. A actual cena política francesa, como a maior parte das cenas políticas ocidentais, é uma cena pré-codificada. Isso significa que os únicos que têm possibilidade de aceder ao poder são aqueles de quem se sabe previamente não terem qualquer intenção de mudar (ou tentar mudar) os fundamentos de uma sociedade actualmente totalmente dominada pela ideologia comercial. Desse ponto de vista, não há hoje qualquer alternativa. A alternativa foi substituída pela alternância, tendo como consequência uma decepção permanente das massas populares, uma crise generalizada da representação e um fosso que não para de crescer entre o povo e a nova classe político-mediática.
Já que tem um grande conhecimento político, vou levantar o tema dos extremos no nosso país: tem-se frequentemente a impressão que a FN (Frente Nacional) não é mais do que um balão (para uma grande maioria de eleitores frustrados) constituído por "um grande vazio" (ausência de programa económico claro, tomadas de posição geopolítica contraditórias, incapacidade de gerir autarquias, etc.) mas mantida unida e em posição de força pelo seu presidente, Jean Marie Le Pen. Enquanto se desenham novas linhas políticas no interior do próprio movimento nacional (Soral apostando num soberanismo azul-branco-vermelho e no anti-sionismo, ou pelo contrário os identitários anti-jacobinos e euro-regionalistas), como vê o pós-Le Pen? A extrema-esquerda parece igualmente em reestruturação, depois do desmoronamento do PC (Partido Comunista) e a não penetração da LCR (Liga Comunista Revolucionária), PT e LO (Luta Operária) e o aparecimento do NRA liderado por Drucker... Dir-se-ia que este movimento é totalmente incapaz de aproveitar a oportunidade que no entanto se oferece (precarização social, crise financeira, etc). Estarão estes dois "não acontecimentos" ligados, constituindo a "prova" da abstenção total de oposição ao "sistema" (os partidos liberais da situação)?
A Frente Nacional obteve um certo sucesso no passado graças à soma de dois eleitorados bastante diferentes: um eleitorado popular, principalmente operário, e um eleitorado proveniente das camadas médias e inferiores das classes médias e da pequena-burguesia. Esse segundo eleitorado deixou de apoiar Le Pen durante a eleição presidencial de 2007 para se juntar a Nicolas Sarkozy. Está hoje desiludido, mas isso não o leva a regressar à FN. Esta última, por seu lado, nunca aprendeu a lição do seu sucesso junto das classes populares. Os trabalhadores estão incrivelmente ausentes das instâncias dirigentes. O aproveitamento do partido, a sua banalização na paisagem política, a idade do seu líder, as suas divisões permanentes, explicam a estagnação actual. O período pós-Le Pen tem grande probabilidade de ver a FN dividir-se definitivamente em duas partes, subsequencialmente marginalizadas.
A extrema-esquerda beneficia, num contexto de crise social agravada, do espaço aberto pela aproximação do Partido Socialista à sociedade de mercado e pela social-democratização do PC, que já não é hoje um fantasma. Mesmo nesse contexto, no entanto, não marca tantos pontos como se esperaria. A razão principal baseia-se no povo não se reconhecer nas suas tomadas de posição. A esquerda radical, em particular, evita constantemente acusar o patronato de fazer dos imigrantes um exército de reserva do capital, que permite a redução dos salários dos autóctones. É por essa razão que Olivier Besancenot (líder da LCR), para citar um exemplo, tem um sucesso mediático que não se verifica nas urnas. O poder estabelecido utiliza, para além disso, Besancenot e os seus amigos para dividir a esquerda, da mesma forma que François Mitterrand utilizou a Frente Nacional para dividir a direita. Voltamos, por isso, à mesma constante: o povo não dispõe actualmente de nenhum partido no qual possa reconhecer-se.
Falamos da esquerda e da direita radical, que se entregam frequentemente à retórica anti-europeia ou soberanista. Esta palavra faz sentido numa época de mundialização? A França tem alguma hipótese de sobreviver (demograficamente, culturalmente, economicamente) sem a Europa? Qual é para si o futuro das nações europeias?
Os soberanistas são pessoas muito simpáticas, com quem partilho certas posições (no que diz respeito aos EUA ou à burocracia de Bruxelas, por exemplo), mas ainda não compreenderam que os tempos mudaram. O Estado-nação, que foi a forma política privilegiada durante a modernidade, entrou numa crise irreversível. Hoje é ultrapassado por cima (pela subida das influências planetárias) e por baixo (a emergência das redes e comunidades, o localismo, as exigências quotidianas dos cidadãos). O futuro não está mais nos Estados nacionais, mas nas grandes uniões continentais, cadinhos de cultura e civilização, as únicas formas capazes de regular a mundialização e de construir pólos activos num mundo multipolar.
(Continua...)
sábado, 21 de março de 2009
O Pensamento Único
"O pensamento único é cada vez mais único e cada vez menos um pensamento. A sua dupla sedimentação, ideológica e tecnocrática, leva-o a não tolerar quem se expressa fora das suas fronteiras. Não se dirige contra as ideias que considera falsas, as quais exigiriam ser refutadas mas contra as ideias que considera «más». Essencialmente declamatório e inquisitório, o pensamento único elimina as zonas de resistência mediante uma estratégia indirecta: marginalização, silenciamento, difamação (…). A fabricação da verdade, escreve Bernard Dumont, proíbe legalmente dizer certas coisas e inclusive ordena nem concebê-las, enquanto neutraliza as outras remetendo-as para o reino relativista das «opiniões». A percepção da realidade é alterada, a fronteira entre o mundo real e o mundo da representação esfuma-se, o clima de mentira generaliza a suspeita e desemboca na despolitização geral e num conformismo de massas, à vez necessidade vital e prémio de consolação dos indivíduos perdidos na «massa»."
Alain de Benoist
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Lei dos Mercadores
«A "lei do mercado" – ou seja, a lei dos mercadores – tomou o lugar dos imperativos da soberania nacional, da preservação do património, do enraizamento das culturas, da retransmissão da herança. Tudo pode ser cedido a quem mais ofereça, àquele que mais coloque sobre a mesa. A riqueza que não possa ser objecto de comércio ou troca não vale nada. O próprio homem não vale mais do que valem as coisas que possui. O homem "tecnomorfiza-se". Torna-se um objecto. (...) A rentabilidade material dita-nos a curto prazo o que devemos fazer; determina a nossa opção.»
Robert de Herte
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Ser e Deus(es)
"No paganismo, os deuses não se confundem com o Ser. Não são as causas de todas as formas de ser. Heidegger, dentro do mesmo espírito, diria em 1951: 'Ser e Deus não são idênticos e nunca tentarei pensar na essência de Deus como sendo o Ser (...) Creio que o Ser nunca pode ser pensado como estando na base e como essência de Deus e a sua manifestação pode tocar o homem, é na dimensão do ser que ela fulgura o que não significa de forma alguma que o Ser possa ter o sentido de um predicado possível para Deus.'
Heidegger quer dizer com isto que é no Ser que o deus pode chegar, mas que não chega como a última palavra do Ser. Ao contrário, a teologia cristã identifica o Ser como Deus criador, fazendo deste o primeiro e incondicionado fundamento, a causa absoluta e infinita de todas as formas de ser. No entanto, o cristianismo condena-se a não se poder manifestar sobre o horizonte ontológico ao qual chama o mistério do Ser.
As línguas indo-europeias não dispõem rigorosamente de nenhum termo para designar o ser supremo do monoteísmo bíblico. A atribuição a este último da palavra 'deus', ornamentada com uma maiúscula e de acréscimo arbitrariamente privado de feminino e de plural, é uma convenção perfeitamente arbitrária: onde nos habituámos a ler 'Iavé o teu Deus'(DT.18,15) deve ler-se na realidade, segundo o texto hebraico: 'Iavé Adonai, o teu Elohim'. Uma tal tradução esvazia a palavra 'deus' do seu sentido original para lhe atribuir outro. Cria a ilusão de que todas as religiões têm um 'Deus' e que só se diferenciam pela forma de o designar, encobrindo ao mesmo tempo que através da mesma palavra designamos realidades totalmente diferentes. Quem quer falar de 'deus' não se pode privar desta ambiguidade."
Alain de Benoist
in "Com ou Sem Deus?", Hugin, 2000.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Por uma cidade de dimensão humana
«O urbanismo sofre desde há cinquenta anos a ditadura da fealdade, do sem-sentido e do curto prazo: cidades-dormitório sem horizonte, zonas residenciais sem alma, subúrbios cinzentos que servem de esgotos municipais, intermináveis centros comerciais que desfiguram a entrada das cidades, proliferação de "não-lugares" anónimos concebidos para utentes apressados, centros urbanos exclusivamente dedicados ao comércio e aos que foram despojados do seu ambiente tradicional (cafés, universidade, cinemas, teatros, praças, etc), justaposição de imóveis sem um estilo comum, bairros degradados e entregues ao abandono ou, pelo contrário, permanentemente vigiados por guardas e câmaras de vigilância, desertificação rural e sobrepopulação urbana...
Já não se constroem habitats para viver, mas para sobreviver num ambiente urbano desfigurado pela lei da rentabilidade máxima e da funcionalidade racional. Ora, um habitat é antes de mais um habitat: trabalhar, circular e habitar não são funções que podem ser isoladas, mas antes actos complexos que afectam a totalidade da vida social. A cidade deve ser repensada como o local de encontros de todas as nossas potencialidade, o labirinto das nossas paixões e das nossas acções, em vez de expressão geométrica e fria da racionalidade planificadora. Arquitectura e urbanismo inscrevem-se, por outro lado, numa história e geografia singulares, e devem ser o seu reflexo. Isto implica a revalorização de um urbanismo enraizado e harmonioso, a reabilitação dos estilos regionais, o desenvolvimento das vilas e das pequenas cidades em forma de rede, em torno de cidades regionais, a promoção das zonas rurais, a destruição progressiva das cidades-dormitório e as concentrações estritamente comerciais, a eliminação de uma publicidade omnipresente, assim como a diversificação dos meios de transporte: abolição da ditadura do automóvel individual, transporte ferroviário de mercadorias, revitalização do transporte colectivo, consideração pelos imperativos ecológicos...»
Alain de Benoist
sábado, 1 de novembro de 2008
Maio de 68
«A comemoração do Maio de 68 repete-se a cada dez anos, com a mesma maré de livros e artigos. Estamos no quarto episódio, e os combatentes das barricadas do "bonito mês de Maio" têm hoje idade suficiente para ser avôs. Quarenta anos depois, volta-se a discutir o que ocorreu exactamente nesses dias — se é que ocorreu alguma coisa. Foi o Maio de 68 um catalisador, uma causa ou uma consequência? Inaugurou ou acelerou simplesmente a evolução da sociedade que haveria de ocorrer de qualquer maneira? Piscodrama ou "mutação"?
França tem a fórmula das revoluções curtas. O Maio de 68 não escapou à regra. A primeira "noite de barricadas" teve lugar dia 10 de Maio. A greve geral deflagrou a 13 de Maio. A 30 de Maio o general De Gaulle pronunciou a dissolução da Assembleia Nacional, enquanto um milhão dos seus partidários desfilava pelos Campos Elísios. A partir de 5 de Junho, o trabalho recomeçou nas empresas e algumas semanas mais tarde, nas eleições legislativas, os partidos de direita conquistaram uma vitória em forma de alívio.
Sobre outros episódios que decorreram na mesma época pela Europa, notam-se desde logo duas diferenças. A primeira: em França, o Maio de 68 não foi apenas uma revolta estudantil. Foi também um movimento social, por ocasião da paralisação do país provocada por dez milhões de grevistas. Convocada para 13 de Maio pelos sindicatos, assistiu-se à maior greve geral de sempre registada na Europa.
A outra diferença é a ausência de um prolongamento terrorista do movimento. Em França não se conheceram fenómenos comparáveis aos que tiveram lugar na Alemanha com a Fracção do Exército Vermelho (RAF) ou em Itália com as Brigadas Vermelhas. As causas desta "moderação" foram objecto de numerosos debates. Lucidez ou cobardia? Realismo ou Humanismo? O espírito pequeno-burguês que dominava já a sociedade é sem dúvida uma das razões pelas quais a extrema-esquerda francesa não desaguou no "comunismo combatente".
No entanto, efectivamente, não se pode compreender o que se passou em Maio de 68 sem dar conta que, por ocasião desta data, dois tipos de aspirações totalmente diferentes se exprimiram. Na sua origem movimento de revolta contra o autoritarismo político, o Maio de 68 foi primeiro que tudo, inegavelmente, um protesto contra a política-espectáculo e o reino do mercado, um regresso ao espírito da Comuna, uma tomada de posições em forma de oposição radical aos valores burgueses. Este aspecto não foi antipático, mesmo que se misturassem muitas referências obsoletas à ingenuidade juvenil.O grande erro terá sido acreditar que atacando os valores tradicionais se poderia lutar melhor contra a lógica do capital. Isto era ignorar que estes valores, como tudo o que ainda resistia das estruturas sociais orgânicas, constituíam o último obstáculo ao expansionismo planetário desta lógica. O sociólogo Jacques Julliard fez a propósito uma observação pertinente quando escreveu que os militantes do Maio de 68, quando denunciavam os valores tradicionais, não se aperceberam que esses valores (honra, solidariedade, heroísmo) eram praticamente os mesmos do socialismo, e que, suprimindo-os, abriam caminho ao triunfo dos valores burgueses: individualismo, calculismo e eficácia.
Mas houve também outro Maio de 68, de inspiração estritamente hedonista e individualista. Longe de exaltar uma disciplina revolucionária, os seus partidários queriam antes de tudo "proibir o proibir" e "gozar sem entraves". Desde logo deram contra que não era fazendo a revolução nem colocando-se ao "serviço do povo" que poderiam satisfazer esses desejos. Pelo contrário, compreenderam rapidamente que os seus desejos seriam mais seguramente satisfeitos dentro de uma sociedade liberal permissiva. Aliaram-se naturalmente ao capitalismo liberal, o que proporcionou a muitos deles grande número de vantagens materiais e financeiras.
Instalados actualmente nos estados-maiores políticos, nas grandes empresas e nos grandes grupos editoriais e mediáticos (os soixante-huitards) renegaram praticamente tudo o que acreditavam, não mantendo do seu compromisso juvenil mais do que um sectarismo inalterado. Aqueles que queriam empreender uma "longa marcha contra as instituições" acabaram por se instalar comodamente. Defensores da ideologia dos direitos humanos e da sociedade de mercado, são estes renegados que hoje se declaram "anti-racistas" para fazer esquecer que já nada têm que dizer contra o capitalismo. É também graças a eles que o espírito "bo-bo" ("burguês-boémio", ou seja, liberal-libertário) triunfa por todo o lado, enquanto o pensamento crítico se encontra mais marginalizado que nunca. Neste sentido, não é exagerado dizer que foi finalmente a direita liberal a vulgarizar o espírito "hedonista" e "anti-autoritário" do Maio de 68. É o próprio Nicolas Sarkozy, graças ao seu estilo de vida, que surge como um perfeito "soixante-huitard".
Simultaneamente, o mundo mudou. Nos anos 60 a economia era florescente e o proletariado descobria o consumo em massa. Os estudantes não conheciam a SIDA nem o medo do desemprego, e a questão da imigração nem sequer se colocava. Tudo parecia possível. Hoje, é o futuro que parece fechado. Os jovens não sonham mais com revoluções. Querem um emprego, uma casa e uma família, como todos os outros. Ao mesmo tempo, vivem na precariedade e interrogam-se sobretudo se encontrarão um emprego após os estudos.
Em 1968, nenhum estudante vestia calças de ganga e os slogans "revolucionários" que floresciam sobre os muros não tinham nenhum erro ortográfico! Sobre as barricadas, onde se reivindicavam velhos modelos (a Comuna de 1871, os conselhos operários de 1917, a revolução espanhola de 1936), ou exóticos (a "revolução cultural" maoísta), ao menos militava-se por algo mais que o conforto pessoal. Hoje, as reivindicações sociais têm um carácter puramente sectorial: cada categoria limita-se a reclamar melhores salários e melhores condições de trabalho. "Dois, três, muitos Vietnames"; "Incendiemos a planície", "Hasta la libertad, siempre": tudo isso, evidentemente, já não nos faz bater os corações. Ninguém mais luta pela classe obreira em geral, tão pouco.
O sociólogo Albert O. Hirschman afirmava que a história vê alternar os períodos em que dominam as paixões com períodos em que dominam os interesses. A história de Maio de 68 foi a de uma paixão que se dissolveu num jogo de interesses.»
Alain de Benoist
25 de Abril de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
O que é o GRECE?
O "Groupement de Recherche et d'Études pour la Civilisation Européene" ("Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia"), também conhecido por GRECE (acrónimo francês para "Grécia"), é um think-tank etno-nacionalista, fundado em 1968 pelo jornalista e escritor Alain de Benoist. O GRECE distinguiu-se das restantes organizações conservadoras e tradicionalistas pelo interesse específico nas culturas germânicas e nórdicas, na rejeição do monoteísmo em geral e na recuperação de certos aspectos do paganismo.
O GRECE foi criado em Janeiro de 1968 por cerca de quarenta activistas oriundos de diversos movimentos nacionalistas. Dominique Venner, Jean Mabire e Alain de Benoist estavam entre os fundadores, na tentativa de criar um think-tank intelectual que influenciasse o pensamento conservador francês. Rapidamente os activistas do GRECE criaram duas revistas ("Éléments" e "Nouvelle École") assim como uma editora ("Éditions Copernic"), que publicou autores considerados "pioneiros", como Louis Rougier, Oswald Spengler ou Julius Evola. Outra vertente do GRECE era o estabelecimento de contactos com diferentes círculos culturais e científicos, organizando conferências e encontros.
Vários membros do GRECE, incluindo o próprio Benoist, juntaram-se à redacção da recém-criada revista do "Le Figaro", jornal conservador francês, onde mantiveram uma forte influência até 1981. No fim da década de 70, estima-se que o grupo contasse com cerca de 4000 membros.
Em 1979, o GRECE foi alvo de uma campanha hostil por parte da imprensa francesa, que denunciou o aparecimento de uma "nova extrema-direita" no núcleo da denominada Nova Direita Francesa ("Nouvelle Droite"). Na década de 80, enquanto o GRECE ia perdendo influência, alguns dos mais destacados membros abandonaram o projecto, entre os quais Pierre Vial e Guillaume Faye.
Em termos de publicação, o GRECE editou muitos artigos sobre filosofia política, abordando autores como Carl Schmitt, Julien Freund, Vilfredo Pareto, Ernst Jünger e ideologias como o comunismo, nacionalismo e liberalismo. Entre os tópicos regularmente abordados contam-se temas como a identidade, cultura, religião, racismo e anti-racismo, física, biologia e economia.
Nos últimos anos, o GRECE desenvolveu a ideia de uma Europa politicamente independente, livre das influências do "neo-liberalismo" e dos Estados Unidos, visto como o "representante da ideologia dominante da Modernidade", defendendo ideias como o localismo, o ambientalismo e o comunitarismo.
Problemática dos sexos
"Nas sociedades europeias antigas, a problemática dos sexos não era vivida como conflito porque essas sociedades reconheciam à mulher uma função social específica. Esta função, de carácter privado, não era considerada como menos preciosa nem menos fundamental que aquela, de carácter público, que era assumida pelo homem. Ora, hoje, esta função social já não existe porque ela foi tomada a cargo pela colectividade. O Estado, dotado de prerrogativas sócio-económicas novas, encarrega-se a si mesmo cada vez mais da educação das crianças e da segurança das pessoas. A mulher encontra-se assim despojada das prerrogativas educativas e «tranquilizantes» que, outrotra, eram colocadas sob a sua responsabilidade. Assim, ela é levada «a libertar-se» de um lar que se tornou uma espécie de concha vazia — e onde ela já não tem papel a desempenhar. E como a função social masculina, apesar de se transformar, se manteve, a única possibilidade para a mulher de reassumir responsabilidades é procurar assumir, tanto quanto o possa, a função social do homem, esforçando-se por demonstrar que «não existem diferenças» entre eles."
Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Colocar fim ao "Reino da Quantidade"
«Não desprezamos a economia. A economia não é o diabo. Pelo contrário, a "terceira função" é tão necessária como as outras. É necessária no seu lugar. As três funções são complementares; são indissociáveis. Mas devem estar hierarquizadas: o social na dependência do económico, o económico na dependência do político. E a soberania justificada pelas formas de autoridade que a fazem legítima. Restabelecer no seu lugar a primeira função, a terceira na sua, colocar fim ao "reino da quantidade", à concepção da economia como destino, ao social como razão de ser da política, é tudo a mesma coisa.»
Robert de Herte
domingo, 19 de outubro de 2008
"O homo-economicus existe, mas não é um homem feliz"
«Nenhum sistema - liberal ou socialista - fundado sobre a autonomia integral e a primazia do económico, procura a satisfação geral. O homo-economicus existe, mas não é um homem feliz. A satisfação das suas necessidades materiais, das suas necessidades centradas sobre apenas uma esfera, não apazigua o seu desejo. Pelo contrário, reforça-o, torna-o tão insaciável como frustrado. Toda a concepção da sociedade fundada sobre o bem-estar, sobre o "welfare", não pode senão fracassar na sua ambição de suscitar a felicidade. Esta resulta da apropriação pelo homem do seu ser próprio, da apropriação pelo homem de uma personalidade específica no interior de uma identidade colectiva - enquanto a sociedade mercantil, massificada, desculturalizante, despersonalizante, não se constrói se não pela aglomeração de homens-massa, ou seja, sobre a ruínas das diferenças e das personalidades.»
Roberte de Herte
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Comparações (II)
"Comparar, não quer evidentemente dizer assimilar: os regimes comparáveis não são necessariamente idênticos, mesmo que certos autores o tenham afirmado no caso do comunismo e do nazismo. Comparar significa colocar junto, para as pensar em conjunto sobre um certo número de relações, duas espécies distintas de um mesmo género, dois fenómenos singulares no interior de uma mesma categoria. Comparar não é, também, banalizar ou relativizar. As vítimas do comunismo não apagam mais as vítimas do nazismo do que as vítimas do nazismo apagam as do comunismo. Não nos podemos apoiar nos crimes de um regime para justificar ou atenuar a importância dos crimes cometidos por outro: os mortes não se anulam, somam-se. Que o comunismo tenha sido ainda mais destruidor que o nazismo, não torna o segundo «preferível» ao primeiro, pois a escolha nunca ficou confinada a uma alternativa entre os dois."
Alain de Benoist
in "Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)", Hugin Editores (1999)
sábado, 19 de julho de 2008
A cidade
"Oswald Spengler, em Le Déclin de l'Occident (Gallimard, 1948), traçou de forma infinitamente mais correcta, a evolução da cidade, desde o burgo até à «cidade mundial».
A diferença entre o burgo e a cidade não reside apenas nas suas dimensões. O burgo não se opõe fundamentalmente ao campo. Construído em redor do mercado, ele constitui o ponto de intersecção de um certo número de interesses rurais. Está ligado à terra e depende da «natureza», de que ele adopta os hábitos e os ritmos.
Com a «cidade de cultura», isto é, a cidade tradicional, a natureza encontra-se, pelo contrário, nitidamente dominada, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista político. A cidade transforma-se em pequena sociedade autónoma, em constante evolução em relação ao meio ambiente. Torna-se o sujeito colectivo da hstória dos seus habitantes. A relação entre a cidade e o campo é, então, análogo à relação entre a sociedade e a «natureza». É nisso que as sociedades citadinas são pleneamente históricas, por oposição às sociedades rurais, que são sociedades de repetição. (O campo desempenhando um papel, indispensável, de reserva humana potencial destinada a actualizar-se progressivamente nas cidades — ao mesmo tempo que se efectua a sua própria substituição.)
Mas a «cidade de cultura» em breve se expande. Desdobra-se em arrabaldes que, pouco a pouco, vão absorvendo os meios rurais circundantes. A relação com a natureza deixa de ser dialéctica para passar a ser esterilizante. O mundo rural é esvaziado, sem que tenha tempo de se renovar. Paralelamente, a gestão da cidade torna-se cada vez mais pesada e burocrática. Formas geométricas e cristalizadas substituem-se às formas orgânicas. O anonimato é a regra, encontrando-se o indivíduo desprovido de meios para se situar, de forma perdurável, em relação ao seu próprio meio. É assim que surge a «cidade mundial», submetida, segundo as épocas, ao poder dos tecnocratas ou dos funcionários imperiais. A sua aparição, diz-nos Spengler, corresponde ao estádio da «petrificação» das culturas.
«Estas cidades gigantescas e pouco numerosas», escreve, «banem e matam, em todas as civilizaçãos, sob o conceito de província, e por inteiro, a paisagem que foi a mãe da sua cultura (...). Elas transformam-se na história petrificada de um organismo».
«As cidades mundiais do tempo dos Han e dos índios da dinastia dos Maurya», acrescenta ele, «possuiram as mesmas formas geométricas. As cidades mundiais da civilização euro-americana encontram-se longe de haver atingido o cume da sua evolução. Vejo aproximar-se o tempo em que se construirão cidades urbanas de dez ou vinte milhões de habitantes».
É a este estádio aquele a que chegámos.
Todos os Estados modernos se encontram, hoje, confrontados com o mesmo problema: como canalizar o crescimento das grandes cidades sem prejuficar as exigências da vida social — ou o seu desenvolvimento? Neste domínio, e até agora, tem prevalecido o pragmatismo e a visão a curto prazo. Mas hoje, não é já possível que as cidades continuem a crescer por si próprias. As mais futuristas das propostas não faltam. Mas as soluções não são mais do que uma questão técnica, de planos, e de «metrópoles de equilíbrio». O exemplo de Nova Iorque dá que pensar: o fracasso desta cidade representa o fracasso de um certo modo de organização e de povoamento urbanos."
Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981
sexta-feira, 18 de julho de 2008
George Sorel (IV)
Nacionais-revolucionários
Sorel terá influenciado Barrès e Péguy tanto como Lenine. Este último, no Matérialisme et Empiriocriticisme, denunciá-lo-á, no entanto, como um «espírito trapalhão».
«Depois da França», observou Alexandre Croix na Révolution Prolétarienne, «a Itália terá sido a 'terra de eleição do sorelismo'». Sorel exerceu ali, aliás, uma grande influência na escola sindicalista dirigida pelo futuro ministro italiano do Trabalho (1920-1921), Arturo Labriola. Este, desde 1903, traduzia L'Avenir Socialiste des Syndicats no Avanguardia de Milão. Um dos seus lugares-tenentes, Enrico Leone, foi quem prefaciou a primeira aparição de Réflexions que surgiu em Itália sob o título Lo Sciopero Generale e la Violenza («A Greve Geral e a Violência»).
A seguir, Sorel teve igualmente influência sobre Vilfredo Pareto, Benedetto Croce, Giovanni Gentile e (através de Hubert Lagardelle), sobre Benito Mussolini.
Na Alemanha, o sorelismo encontra uma espécie de prolongamento nas correntes nacionais-revolucionárias e nacionais-comunistas que se manifestaram nos meados dos anos vinte durante a Weimar. (Cf. Michel Freund, George Sorel, Der Revolutionäre Konservatismus, Vittorio Klostermann, Frankfurt/M., 1932 e 1972.)
Logo que Sorel morreu, em 1922, o monárquico George Valois, em L'Action Française, e o socialista Robert Louzon, em La Vie Ouvrière, renderam-lhe uma homenagem plena da mesma admiração. Algumas semanas mais tarde Mussolini, ao fazer a sua entrada em Roma, declarava a um jornalista espanhol: «É a Sorel que devo quase tudo».
O governo soviético e o Estado fascista propuseram, no mesmo dia, assumir o encargo do seu túmulo.
Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981
segunda-feira, 7 de julho de 2008
George Sorel (III)
O nome da velha Antioquia
A partir de 1907 George Sorel faz-se artesão de uma aproximação entra anti-democratas de esquerda e de direita. O órgão desta aproximação é a Reuve Critique des Idées et des Livres, onde o nacionalista George Valois publica os resultados do seu inquérito sobre La Monarchie et la Classe Ouvrière.
Em 1910 surge a revista La Cité Française. Depois, de 1911 a 1913, L'Indépendence. Aí se encontram as assinaturas de George Sorel, Jean Variot, Edouard Berth, Daniel Halévy, mas também dos irmãos Tharaud, de René Benjamin, Maurice Barrès e de Paul Bourget.
Em 1913, o jornalista Edouard Berth, autor de Méfaits des Intellectuels, saúda, em Maurras e em Sorel, «os mestres da regeneração francesa e europeia». Mas, em Setembro de 1914, Sorel escreve-lhe: «Entramos numa era que bem poderia ser caracterizada pelo nome de Velha Antioquia. Renan descreveu muito bem esta metrópole de cortesãos, charlatães e mercadores. Em breve teremos o prazer de ver Maurras condenado pelo Vaticano, o que será a justa punição das suas afrontas. Aliás a que poderia realmente corresponder um partido realista numa França unicamente ocupada em desfrutar a vida fácil de Antioquia?».
«A Maurras», explica o sociólogo Gaëtham Pirou, «Sorel reprovava o ser demasiado democrático, censura que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Na realidade o que Sorel queria dizer é que Maurras, positivista e intelectualista, não tinha repudiado a democracia senão sob o seu aspecto político e não no seu fundamento filosófico (George, Sorel, Marcel Rivière, 1927).
Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981