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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

God bless America


"A informatização das empresas americanas promoveu a hemorragia de postos de trabalho e de sectores inteiros de actividade que se mudaram para lugares remotos, bem como a «deslocalização» de departamentos inteiros para outros países. Os rendimentos decrescentes adicionais associados à vitória retalhista nacional foram a destruição maciça das comunidades americanas, incluindo o hardware das localidades e o software dos papéis sociais e redes a elas associados. Os computadores limitaram-se a ajudar as empresas predadoras a parasitarem mais eficazmente os valores existentes nas localidades vitimizadas. Foram extremamente bem-sucedidos na tarefa de sugar a alma de comunidades complexas. Ajudaram a «converter» a complexidade em simplicidade (um enorme estabelecimento em lugar de vinte e sete pequenas empresas locais) e a aumentar a entropia da sociedade."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O cancro suburbano

"Nos anos 80 e 90, assistiu-se nos Estados Unidos a uma conversão de bens públicos em luxos privados, ao empobrecimento do domínio cívico e, para falar com franqueza, à violação da paisagem — um enorme empreendimento entrópico que foi a fase culminante dos subúrbios. O segredo sujo da economia americana dos anos 90 consistia no facto de estar reduzida à criação da expansão suburbana e ao fornecimento, equipamento e financiamento dessa actividade. Assemelhava-se à eficácia do cancro. Nada mais interessava realmente a não ser a construção de habitações suburbanas, a negociação de hipotecas, a venda do grande número de automóveis de que os habitantes precisavam, a transformação das ruas em auto-estradas com toda a infra-estrutura comercial necessária e o transporte de enormes quantidades de mercadoria feita na China, por um preço baixíssimo, para encher estas casas.
A economia de expansão suburbana era uma reacção sistémica e auto-organizada à abundância de petróleo desmesuradamente barato, com uma entropia cada vez maior traduzida numa variedade crescente de manifestações, desde a destruição das terras de cultivo até à decadência das cidades, à depressão psicológica generalizada, aos tiroteios nas escolas, à obesidade epidérmica. Os Americanos não questionavam a validade da economia de expansão suburbana. Aceitavam-na pelo seu valor facial, como a consequência óbvia e lógica das suas expectativas e sonhos, e defendiam-na com unhas e dentes contra as críticas. Ignoraram firmemente a sua característica evidente — o facto de não ter futuro quer enquanto economia, quer enquanto modo de vida. Cada modificação introduzida no sistema suburbano diminuía as suas probabilidades de sobreviver a qualquer mudança nas condições, particularmente no que diz respeito ao petróleo barato."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Does it ring you any bell?

«O que se sabe é que o craque da Bolsa desencadeou outro circuito de realimentação poderoso e destrutivo. Muitas acções sobrevalorizadas tinham sido adquiridas a crédito. Quando o preço de muitas acções desceu a pique, os bancos possuíam garantias em acções que valiam muito menos do que o dinheiro que tinham emprestado às pessoas para as adquirirem. Não foi só a Bolsa que arruinou os bancos (a queda nos valores dos bens imobiliários e de outras garantias também desempenhou o seu papel), mas, em 1934, 11 000 bancos tinham falido ou sido obrigados a fundir-se, o que representou uma redução de 40% no número de casas bancárias (25 000 para 14 000).»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

E quando a bolha rebentar?

«A ideia da vantagem comparativa funciona quando, por trás do artigo especializado produzido por cada parceiro comercial, subsiste intacta uma economia local complexa, com diversos papéis sociais e nichos profissionais, capazes de apoiar o projecto a longo prazo da comunidade. Porém, uma localidade organizada para produzir apenas um artigo para exportação acaba por ser um sistema esclavagista baseado na lógica económica da exploração. Na versão extrema da vantagem comparativa, sob o regime do inudstrialismo hiper/turbo de finais da era do petróleo, com os seus transportes ultrabaratos e as suas comunicações instantâneas que anulavam quaisquer vantagens da geografia, as únicas vantagens comparativas que restavam eram a mão-de-obra barata e o capital livre. Um grupo possuía toda a mão-de-obra barata e o outro todo o capital, e, durante algum tempo, um grupo produzia todas as coisas que o outro grupo «consumia». Por conseguinte, a vantagem comparativa transformou-se numa vigarice para benefício exclusivo das grandes empresas, que acabaram por usufruir de todas as vantagens enquanto as localidades arcavam com todos os custos.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quinta-feira, 19 de março de 2009

"Teremos de renunciar aos próprios sistemas"

«Os combustíveis fósseis permitiram que a espécie humana criasse e mantivesse sistemas altamente complexos a escalas gigantescas. As fontes de energia renovável não são compatíveis com esses sistemas e escalas. As energias renováveis não conseguirão ocupar o lugar do petróleo e da gasolina nesses sistemas. Teremos de renunciar aos próprios sistemas. Mesmo muitos "ecologistas" e "verdes" dos nossos dias parecem pensar que basta mudar a energia. Em vez de usarmos electricidade gerada por petróleo ou gás para fazer funcionar os aparelhos de ar condicionado de Houston, usaremos parques eólicos ou enormes painéis solares; teremos automóveis com combustíveis supereficientes e continuaremos a circular de um lado para o outro no sistema rodoviário interestadual. Não é isso que vai acontecer. O desejo de manter os mesmos sistemas gigantescos a escalas gigantescas, recorrendo a energias renováveis, ocupa o lugar central nas nossas ilusões sobre energia solar, eólica e hidráulica.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pensar localmente para (re)agir globalmente

«Existem outras maneiras de utilizar o sol e o vento que não dependem de engenhocas de alta tecnologia do tipo dos painéis solares e das turbinas e, futuramente, recorreremos cada vez mais a elas. Um cavalo de carga é uma ferramenta agrícola movida a energia solar, capaz de se reproduzir, ou seja, auto-renovável. Implica, no entanto, um sistema de agricultura inteiramente diferente. Uma horta é uma actividade movida a energia solar que produz alimentos à escala familiar. Na nossa época, as hortas perderam importância, transformando-se quase em decoração de exteriores. Com o fim do petróleo, teremos certamente de produzir mais alimentos perto dos locais em que habitamos, e será isso que farão aqueles de nós que possuírem alguma terra, nem que seja um quintal numa casa citadina. A energia eólica, solar e hidráulica pode realizar muito trabalho útil, a pequena e média escala, sem recorrer aos combustíveis fósseis. Teremos certamente de recorrer mais a elas em pequena escala e a nível local, seja o que for que nos reserve o futuro.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O princípio do fim

«Em meados dos anos 80, a desregulamentação dos mercados e as actividades desenfreadas eram encaradas como a panaceia que curaria as maleitas das decrépitas indústrias tradicionais. A ganância era de bom-tom. Os jovens licenciados marchavam em hordas para os MBA, na esperança de saírem de lá transformados em guerreiros ninja. Foi precisamente o ímpeto empresarial de jovens e brilhantes inovadores que deu origem à magia da indústria informática. Por sua vez, a ascensão dos computadores promoveu a ilusão de que o comércio da informação pura iria ser o substituto havia muito aguardado de todas as actividades decrépitas da economia industrial tradicional. Um país como os Estados Unidos, pensava-se então, já não necessitava de siderurgias, de fábricas de pneus, ou de outras actividades igualmente árduas, sujas e incómodas. As pobres massas da Ásia e da América do Sul que as acolhessem e se libertassem da servidão rural! Os Estados Unidos iriam deslocalizar todas essas actividades económicas antiquadas e usar computadores para orquestrar o movimento dos componentes e a montagem de produtos oriundos de diversos cantos do mundo, vendendo-os, depois, nos nossos Kmarts e Wal-Marts, que se tornariam os mastodontes globais do comércio retalhista. Acreditava-se que os computadores iriam aumentar enormemente a produtividade em todas as fases do processo. Os nichos profissionais abandonados na indústria seriam substituídos por profissões na economia de serviços que caminhariam a par da economia da informação. Transformar-nos-íamos num país de cabeleireiros, de massagistas, de croupiers, de proprietários de restaurantes e de agentes de espectáculos, satisfazendo as necessidades uns dos outros. Ao fim e ao cabo, quem desejaria trabalhar numa laminagem?»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Revolta contra a Arquitectura Moderna

«A arquitectura pré-modernista foi concebida para aproveitar a luz solar para o aquecimento e iluminação dos edifícios (e as brisas, que também são produzidas pela acção solar no ar, para o arrefecimento). O desenvolvimento dessas técnicas tradicionais foi uma acumulação lenta e dolorosa de experiências ao longo de séculos. Foi a abundância anómala de petróleo e gás baratos na nossa época que permitiu aos construtores, e sobretudo aos arquitectos, preocupados com questões de estilo, afastarem-se das práticas tradicionais que tiravam partido da energia solar passiva. O século XX foi a era das curtain walls de vidro nos prédios de escritórios, das janelas que não abriam (ou que não existiam), das fachadas em titânio e de outras façanhas da moda destinadas a decorar os edifícios para proclamar o génio ousado e criativo de quem os concebia. Este comportamento narcisista só foi possível numa sociedade com uma energia barata, na qual pouco mais importava na arquitectura do que a moda e o estatuto associados a um lugar de vanguarda. Num museu concebido por Frank Gehry, pouco importava que entrasse ar ou luz, porque era para isso que serviam o ar condicionado e os focos de halogéneo. O que importava era que a cidade fosse abençoada com um objectivo da moda criado por um xamã célebre. Ora, nada está mais sujeito a desvalorizar-se por deixar de estar na moda do que uma coisa que só é valorizada por ser moderna.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.