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sábado, 21 de novembro de 2009

A Grande Cidade


«Ó Zaratustra!, é esta a Grande Cidade; aqui nada tens que procurar, mas tudo a perder.
Porque havias de querer chafurdar neste lodaçal? Tem piedade dos teus pés! Cospe antes à porta da cidade, e segue o teu caminho.
Aqui é o inferno para os pensamentos dos solitários; aqui os grandes pensamentos são cozidos vivos e reduzidos a papa.
Aqui apodrecem todos os grandes sentimentos; aqui apenas são autorizadas as crepitações dos sentimentos miúdos já completamente ressequidos.
Não sentes já o cheiro dos matadouros e das tascas do espírito? Não exala esta cidade um vampor de espírito trucidado?
Não vês as almas pender como farrapos moles e sujos? E desses farrapos ainda fazem jornais!
Provocam-se mutuamente sem saber porquê. Excitam-se uns contra os outros sem saber porquê. Chocalham as suas letas, fazem ressoar o seu ouro.
Sentem frio e procuram aquecer-se com aguardente. Têm calor e procuram o contacto fresco dos espíritos gelados; estão todos doentes, estão todos contaminados pela opinião pública.
É aqui a pátria de todas as concupiscências e de todos os vícios.»

Friedrich Nietzsche
in "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores (2004).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A "felicidade do maior número"


«Hoje, os insignificantes tornaram-se os senhores, todos pregam a resignação, a acomodação, e a prudência e a aplicação, e as considerações, e todo o extenso et caetera das virtudes miúdas.
Os homens efeminados, os filhos dos escravos e sobretudo a populaça mestiçada, tudo isso quer agora assenhorear-se do destino humano — ó horror, horror, horror!
Eis os que procuram e se inquirem sem descanso: «Como conservar o homem o mais tempo possível, o melhor possível, com mais agrado?» São assim os senhores da hora.
Será necessário subjugar estes senhores da hora, estes insignificantes, ó meus irmãos. São para o Super-humano o pior dos perigos.
Superai, peço-vos, Homens superiores, estas miúdas virtudes, estas pequenas astúcias, estes escrúpulos do tamanho de um grão de areia, este bulício de formigas, esta miserável satisfação de si, esta "felicidade do maior número"!»

Friedrich Nietzsche
in "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores (2004).

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Somos todos iguais"

«A primeira vez que estive em casa dos homens, pratiquei a tolice que cometem todos os solitários, a grande tolice de me instalar na praça pública.
Dirigindo-me a todos, não me dirigia a ninguém. (...) Mas na manhã seguinte vi brilhar uma verdade nova; aprendi a dizer: «que me importam a praça pública e a populaça e a algazarra festiva e as orelhas compridas da populaça!».
Homens superiores, aprendei comigo esta verdade: na praça pública ninguém acredita nos Homens superiores. E se quereis falar na praça pública, fazei-o; mas a populaça dirá piscando os olhos: "Somos todos iguais."
"Homens superiores — assim fala a populaça piscando os olhos —, não há Homens superiores, somos todos iguais. O Homem é apenas um homem — diante de Deus somos todos iguais!"»

Friedrich Nietzsche
in "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores (2004)

terça-feira, 24 de junho de 2008

E no princípio foi o verbo ...

"Já se percebe com que facilidade o modo de valoração sacerdotal pode derivar daquele cavalheiresco-aristocrático e depois desenvolver-se em seu oposto; em especial, isso ocorre quando a casta dos sacerdotes e a dos guerreiros se confrontam ciumentamente, e não entram em acordo quanto às suas estimativas. Os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos têm como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve à sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma actividade robusta, livre, contente.

O modo de valoração nobre-sacerdotal - já o vimos - tem outros pressupostos: para ele a guerra é mau negócio! Os sacerdotes são, como sabemos, os mais terríveis inimigos – por quê? Porque são os mais impotentes. Na sua impotência, o ódio toma proporções monstruosas e sinistras, torna-se a coisa mais espiritual e venenosa. Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito - comparado ao espírito da vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece.

A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhe trouxeram - tomemos logo o exemplo maior. Nada do que na terra se fez contra "os nobres", "os poderosos", "os senhores", "os donos do poder", é remotamente comparável ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração dos valores deles, ou seja, por um acto da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que, com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais fundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, "os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados!...".

Sabe-se quem colheu a herança dessa tresvaloração judaica... A propósito da tremenda, desmesuradamente fatídica iniciativa que ofereceram os judeus, com essa mais radical das declarações de guerra, recordo a conclusão a que cheguei num outro momento (Além do bem e do mal, § 195) - de que com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa..."

Friedrich Nietzsche
in "A Genealogia da Moral", 1º ensaio – capítulo VII

(Rodrigo N.P.)

sábado, 10 de maio de 2008

O Último Homem

"Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezível, do que nem se poderá desprezar a si mesmo.
Olhai! Vou-vos mostrar o Último Homem:
«O que é amar? O que é criar? O que é desejar? O que é uma estrela?» Assim falará o Último Homem, piscando o olho.
A terra ter-se-á então tornado exígua, nela se verá saltitar o Último Homem, que apouca todas as coisas. A sua espécie é tão indestrutível como a do pulgão; o Último Homem será o que viver mais tempo.
«Descobrimos a felicidade», dirão os Últimos Homens, piscando o olho.
Terão abandonado as regiões onde a vida é dura; pois precisam de calor. Ainda armarão o próximo e se roçarão por ele, porque é necessário calor.
A doença, a desconfiança hão-de parecer-lhe outros tantos pecados; é só preciso ver onde se põem os pés! Insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens!
Algum veneno de vez em quando coisa que proporciona sonhos agradáveis. E muito veneno para acabar, a fim de ter uma morte agradável.
Trabalhar-se-á ainda, porque o trabalho distrai. Mas ter-se-á cuidado para que esta distracção nunca se torne cansativa.
Uma pessoa deixará de se tornar rica ou pobre, são duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado penosas.
Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa, todos serão iguais; quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicómio.
«Noutro tempo toda a gente era doida», dirão os mais sagazes, piscando o olho.
Ser-se-á sagaz, saber-se-á tudo o que se passou antigamente; desta maneira se terá com que zombar sem cessar. Ainda haverá querelas, mas depressa surgirá a reconciliação, com medo de estragar a digestão.
Ter-se-á um poucochinho de prazer durante o dia e um poucochinho de prazer durante a noite; mas reverenciar-se-á a saúde.
«Descobrimos a felicidade», dirão os Últimos Homens, piscando o olho."

Friedrich Nietzsche
in "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores (2004)