sábado, 5 de julho de 2008

Uma resposta breve ao Corcunda

Diz o Corcunda, sobre o meu texto “A Revolução contra a Contra-Revolução”:

«Há uns tempos no blogue Inconformista, Rodrigo N. P., publicou um artigo que falava sobre o Nacionalismo e a Direita Anti-Revolucionária. É quase um manual para o nacionalista de hoje, moderníssimo (ultra-moderno, aliás) que corta a direito e vai directo às preocupações do homem actual. Caminha no sentido da actualidade em todos os sentidos, incluindo na superficialização de conceitos e na incapacidade de alcançar sentidos nas palavras que ultrapassem a superficialidade momentânea.»

Situo-me na actualidade e falo para o homem actual, o que é diferente de me situar na modernidade e de falar para o homem moderno. A forma como o homem se relaciona com o mundo é sempre um produto da sua biologia, do seu tempo e do seu espaço. Esta minha posição reafirma a rejeição do espírito sem matéria, do homem a-histórico e do homem universal.

O que fiz foi precisamente o contrário de uma superficialização, foi uma clarificação de conceitos, redireccionando a Nação para o seu sentido originário, o de uma comunidade de raça. Nação provém etimologicamente do latim “nationem” que designava aqueles que nasciam no seio de um mesmo povo, de uma mesma etnia. Trata-se primeiramente de um conceito biológico, não de uma "comunidade de valores”. A adulteração do conceito de Nação para significar a comunidade jurídica política é o que acorrenta a Nação à Modernidade, é aí que reside a rendição da Nação à vontade dos triunfadores da História.


«O Nacionalismo (como apanhou bem o GdR) a que o autor se refere, corresponde a uma situação em que a adesão política vai para a comunidade, independentemente do que esta defende e acima de toda a actividade especulativa. Se não existe Nação numa situação em que a comunidade se articula em torno de valores exteriores a si, ficamos a saber que Portugal nasce com a I República e que até então seria uma outra coisa qualquer. Isto já diz muito sobre esta forma de nacionalismo.»

É evidente que o nacionalismo corresponde a uma situação em que a adesão política vai para a comunidade - enquanto Nação - mas para se compreender verdadeiramente isso é imprescindível ter presente a distinção entre Estado e Nação, porque quando dizemos que o nacionalismo significa aquilo, estamos a afirmar que o nacionalismo é, antes de mais, a defesa da identidade nacional (o que, como já vimos atrás, implica a defesa da estirpe).

Daqui resulta que se o Estado actuar contra a identidade da Nação, é necessidade imperativa do nacionalismo ter esse Estado por adversário. Da mesma forma, se o Estado decidir proceder a um acto hostil contra outra comunidade, na exacta medida em que essa acção não aja em defesa da identidade nacional, ela não pode vincular o nacionalismo.

É particularmente engraçada a conclusão de que se a comunidade não se articular em torno de “valores exteriores a si” Portugal nasceria com a I Republica. Ora, este raciocínio é uma prova da minha razão, porque quem assim fala não compreende a diferença entre o Estado e a Nação; a ruptura que a I República impôs foi no âmbito do Estado, não da Nação. A mesma Nação existiu depois da I República como antes dela.

Pelo contrário, é o Corcunda que, ao pretender que a “Nação” apenas tivesse sentido ao serviço daquela fantasia dos “valores exteriores”, vem pousar para esse retrato, porque é precisamente esse delírio que permitiria proclamar o fim da “Nação” com o advento da I República.

«Depois vem uma enorme confusão. Diz o Rodrigo N. que o Contra-Revolucionário luta por uma comunidade jurídica e que o nacionalismo que perfilha se guia por um critério histórico. Se este erro é comum, não é certamente menos disparatado. Ao longo de toda a Época Medieval não existiu qualquer teoria que tenha defendido a defesa do Rei ou da comunidade política apenas por esta ser a sua. Pelo contrário, a filosofia política medieval supreende o homem moderno pelo seu constante apelo a critérios que são extra-jurídicos.»

Eu falei em Contra-Revolução e o Corcunda responde com a teoria política da Idade Média. Ainda que essa época possa ser uma espécie de “nec plus ultra” para os contra-revolucionários, a verdade é que estes se situam num outro tempo e confrontados com outra realidade, mesmo no que concerne aos conceitos políticos, porque o contra-revolucionário existe depois do triunfo da Revolução. O que o Corcunda escreve não nega em nada o que eu disse, porque para o efeito é redundante saber se a inspiração medieval do contra-revolucionário apela a supostos critérios extra-juridicos. A questão é que se a Contra-Revolução coloca o Estado, ou o jurídico, ao serviço desse pretenso extra-jurídico isso não altera o facto de ser esse jurídico, essa realidade contratual delimitada pelo Rei ou pelo Estado, aquilo que ele considera Nação.

« A comunidade jurídica deve existir porque serve finalidades que são maiores que a própria e o Direito serve para as proteger. Ninguém diz “defende o teu Rei ou o teu país porque eles são o teu Rei e o teu país”, mas tenta munir o homem de critérios para que encontre a acção justa (saber que Rei servir vem da capacidade de compreender a melhor ordem política). Ora quem usa esse argumento são precisamente os defensores da modernidade que dizem “o que é justo é aquilo que a comunidade ou o Rei te dizem”. Muitos até dizem que isso é ser contra o “abstracionismo universalista”...»

Antes de mais impor-se-ia saber quem é que determina que a comunidade só deve existir se servir finalidades maiores que a própria, e que finalidades são essas… Por outro lado, não é verdade que o nacionalismo defina o que é justo por aquilo que o Rei ou o Estado determinam, e já o explicámos atrás, porque, se assim fosse, ao nacionalismo não seria possível declarar o Estado ou o Rei como adversos. Mas a questão é mais vasta, porque até agora explicámos que esse confronto com o Estado seria despoletado pela acção deste contra a identidade nacional. Ora, é claro que os critérios de justiça existem para além dessa situação, portanto o fundamental é compreender que a ideia do que é justo dispensa os tais “valores exteriores” bíblicos a que o Corcunda a pretende amarrar, e negar isso é inaceitável, pois significa colocar um risco por cima das raízes da Europa, que se prolongam por todo o mundo indo-europeu até à Antiguidade Clássica. É ignorar que antes do surgimento de qualquer cristão já a Europa pensava o bom, o belo e o justo, e em função disso organizava as suas comunidades, mas pensava-os a partir de um critério que não é Revelado, porque isso é uma tradição forânea ao espírito europeu.

«Todos percebem o que o autor quer com isto e a confusão desemboca onde todos (menos o autor do escrito) já perceberam irá dar. Se o “verdadeiro nacionalismo” está acima da especulação, não se percebe qual é o critério acima do jurídico ( que expressa a vontade da comunidade) que poderá ser “histórico e étnico”. Há uma inconsistência grave e elementar em todos os que dizem que a comunidade é o critério e depois desatam a dar-lhe os seus critérios. Se assim fosse, não deveria o RNP aceitar os critérios que lhe são dados pela presente comunidade e aceitar as suas leis (a imigração p.ex.)? A não ser que se encontre inserido noutra comunidade, mas isso de comunidades imaginadas é um instrumento de poder, como dizia o Anderson. Habitar comunidades imaginadas e falar contra a abstracção é caso estranho.»

Porque a Nação é um dado histórico e étnico ela distingue-se do jurídico. O jurídico, que é de facto expressão de uma vontade, deve servir, na forma nacionalista, a necessária preservação da identidade nacional e o aperfeiçoamento da Nação. Assim, é evidente que o nacionalismo não poderia aceitar os critérios dados pela presente comunidade política, porque eles, logo à partida, são atentatórios da própria defesa da estirpe (pela imigração, por exemplo).

Note-se que a forma como eu e o Corcunda nos colocamos perante o Estado é perfeitamente reveladora do que ambos somos politicamente:

Para o Corcunda este Estado é indigno porque não se encontra ao serviço dos tais "valores externos" e do seu projecto de universalização. O que o Corcunda rejeita não é a coincidência da Nação com a comunidade política delineada pelo Estado, mas sim a falta de sentido em que o Estado vive mergulhado por não obedecer ao seu “critério exterior”.

Para mim, este Estado é indigno porque não está ordenado a partir do princípio de salvaguarda e elevação da identidade nacional, que é o princípio que legitima os Estados que são boa expressão das Nações. O Estado não é algo de irrelevante para a Nação, é uma entidade diferente, e que, quando saudável, tem um importante papel de reforço da consciência que a Nação tem de si, mas precisamente porque são entidades diferentes, a defesa da Nação pode exigir a refundação do Estado - da mesma forma que o sucesso do Estado anti-nacional pode depender da destruição da identidade étnica da comunidade.

Rodrigo N.P.
bf_europa@yahoo.com

5 comentários:

NC disse...

Estes debates são um pouco inúteis, já que estão em causa duas posições irreconciliáveis, mas sempre servem para marcar posições e guardar distâncias.

PS: A imagem está muito boa ;)

PS2: Porra, que é dificil comentar neste blogue...

Anónimo disse...

Para começar devo dizer que gostei muito da imagem e acrescento que, aparte da "bermuda" está bastante aproximado. Sou, talvez, um bocadinho mais estrábico, mas não está mal.

Uma correcção. No seu sentido original "natio" significa "nascido de", mas consideravam-se como tal os filhos adoptivos, mesmo que de outras origens étnicas. São abundantes os casos da História de Roma em que pessoas de outros povos ascenderam a cargos de relevo por pertença familiar adquirida e não sanguínea e em que escravos estrangeiros se tornaram romanos de relevo. Ou seja, não existe nenhuma obsessão etnica de consanguinidade como se viria a verificar no século XIX.

O que o Rodrigo não percebeu, na sua prédica anti-abstraccionista, é que ele próprio utiliza um critério normativo extra-jurídico na sua posição. Se o Estado ou a Nação não podem decidir atacar a Raça, a Estirpe, ou lá o que é isso, isso significa que há um critério exterior. O problema é que candidamente nos diz que ele não tem um critério exterior que o Estado está forçado a servir.

Já quanto ao falado "espírito europeu", não sei o que é isso, porque nada sei de ciências esotéricas. Sei é que quando se afirma "isto é bom por ser europeu" se está a utilizar um argumento para não discutor as virtudes e vícios de um objecto.
É a mesma coisa que um assassino que mata porque já o pai assim fazia ou um vodca nacional...

Parece-me que o texto termina bem e vai no sentido do penúltimo parágrafo deste demasiado extenso comentário. Para mim a Nação é o último referencial político, mas esta é sobretudo o laço espiritual de um povo que se prolonga pela História. Para o Rodrigo é a compreensão que se faz da continuidade biológica. Ambos são externos, porque nenhuma comunidade os pode modelar como deseja. Mas creio sempre que o espírito é superior à matéria...

Os cumprimentos do costume, em particular ao Miguel Vaz, que anda sempre em cima do acontecimento.

O Corcunda

Rodrigo N.P. disse...

Ao NC,

Sim, parecem-me inconciliáveis, esse é aliás o cerne do meu argumento original.


Corcunda,

Natio é o nominativo e Nationem o acusativo, isso não muda o sentido do meu argumento.

Mas vamos ao concreto:

«The word nation comes from the Latin and, when first coined, clearly conveyed the idea of common blood ties. It was derived from the past participle of the verb nasci, meaning to be born. And hence the Latin noun, nationem, connoting breed or race.»
Connor, Ethnonationalism: The Quest for Understanding ,1993, Princeton University, p. 94.

Mas se o Corcunda quiser ir directamente às fontes originárias veja-se o significado do termo Nationem nos “Anais” de Tacitus. A palavra é sempre usada para descrever uma tribo ou uma etnia. Parto do princípio que o Corcunda o reconhece e me dispensa de citar as várias passagens que o comprovam.

Quando o Corcunda fala da História de Roma e do papel que nela desempenharam homens de diferentes povos está a trazer ao debate o conceito de Civitas romana, que como sabe é um conceito distinto do de Nação e muito mais compatível com a ideia de comunidade jurídica (Estado, portanto).

Aliás, vale ainda a pena fazer notar que nos “Anais”, Tacitus alterna, para designar a Nação, os termos nationes ou nationem, com os de gens ou gentis, que como o Corcunda sabe designavam uma raça, uma linhagem, uma etnia, enfim, tinham um significado genético, biológico.

Corcunda, não é “o Estado ou a Nação” que não devem poder atacar a raça ou a estirpe, é o Estado, porque a Nação, por definição, é, antes de tudo, estirpe. Depois, eu não disse que não tinha um critério não-jurídico, nem o poderia fazer, pois se à partida fui eu a estabelecer a distinção entre Estado e Nação, portanto, entre jurídico e não-jurídico, e sou eu que estou a dizer que a acção do bom Estado deve estar ao serviço da defesa e elevação da Nação. Não é o Estado que não tem que estar ordenado em função de um critério exterior, é a Nação que não tem que estar (para fazer sentido) ao serviço de «valores externos».

Mas antes de continuarmos é fundamental que não se usem termos como «extra-jurídico» e «valores externos» ou «fins superiores», como se fossem substitutos, porque não são, uma realidade extra-jurídica não tem por que ser um conjunto de «valores externos» ou um «fim superior». Por outro lado, os tais «valores externos» só podem ser discutidos no devido contexto, para se saber em relação ao que é que se manifesta a sua externalidade. A falta de concretização desses termos não pode beneficiar o debate.

Eu também não percebo grande coisa de ciências esotéricas, mas quanto à tradição espiritual ou religiosa dos europeus sei o suficiente para conhecer a oposição fundamental que estabelece face à tradição judaica-cristã, às suas verdades reveladas, à forma como o homem se relaciona com o divino, à sua necessidade de salvação e expiação de culpa. Quanto ao resto, estamos de acordo, mas o problema é que eu também não afirmei que “aquilo era bom por ser europeu” mas antes que os europeus não precisaram de esperar por um compêndio de histórias messiânicas judaicas para se organizarem e pensarem a justiça. Portanto, esclarecido isso, fico à sua disposição para discutir virtudes e vícios dos objectos…

Quanto a achar que a nação é um “laço espiritual ao longo da História”, concordo, acho que para si é isso mesmo, mas para mim isso não define nada.

Cumprimentos,
RNP

Miguel Vaz disse...

Agradeço os cumprimentos do Corcunda. A imagem é obviamente uma brincadeira, uma action figure do Quasimodo, a propósito do nome de guerra do Corcunda :)
Quanto aos debates, embora coloquem em causa "duas posições irreconciliáveis", criam um dinamismo que é necessário promover. Discutir é preciso, e nestes moldes (de uma forma amigável e cordial) é absolutamente fundamental.

Anónimo disse...

Rodrigo:

Quanto à consideração de «Espírito sem Matéria», no plano existencial, será uma impossibilidade. Não vou discutir a interferência dos planos metafísicos na nossa dimensão. O que não pode existir é Matéria sem Espírito no plano da Vida. E a questão crucial é - o que é superior e dirige?. Que é para si o «Espírito»? Parece não ser capaz de lhe atribuir qualquer papel relevante. Parece que 'não conta', na sua argumentação.

Entretanto escreve: «A forma como o homem se relaciona com o mundo é sempre um produto da sua biologia, do seu tempo e do seu espaço.»
Eis uma afirmação que se me afigura perigosamente redutora, se me permite. Então e a «Cultura»?
Se para si é a «biologia» que engendra a «Cultura» a sua argumentação tem que ser colocada num plano elementarmente materialista, e está no seu direito. Mas até os materialistas consideram a Cultura.
Porém assim será difícil entender o comportamento humano, a Cultura, isto é, toda a carga «não biológica», o «software», se quiser, que nos dita as atitudes, a forma como realizamos todas as actividades, desde as 'vitais' ao entretenimento, passando pela concepção do Mundo. O 'software' tem que ser compatível com o Hardware, claro. Mas quem o escreve. Quem define o Código? Pode o Código ser um produto da Biologia? Ou não será o Código que define os parâmetros em que a biologia se move?

Se a Cultura, no seu sentido antropológico mais profundo, não deve estar em contradição com a biologia (mas pode estar, infelizmente, por erro humano, como no Ocidente moderno os etólogos denunciaram) é ela quem determina as nossas «construções e permite superar as nossas insuficiências «biológicas» por assim dizer. Quando começámos a fabricar, porque inventámos ou nos ensinaram a fazer, as primeiras armas foi a Cultura que nos permitiu triunfar sobre o «inimigo» - homem ou animal feroz, uma ameaça ainda mais velha que a «mais antiga profissão»...

Eu sou um 'realista', e acredito que o plano da Política difere das considerações puramente biológicas em termos de raça, etnia,etc. É também um «plano dos Valores». Mas, para si, o que serão «Valores», se me permite?
Se retirar os «Valores» ao Homem, retira-lhe a História, torna-o um «selvagem abstracto», exactamente o que o Rodrigo não parecia querer. Pare ser realista e 'o mais exacto possível' não é preciso 'desprezar' todos os elementos que 'não são reconhecíveis', que não se vêm ou se podem medir', como certos pseudo-cientistas newtonianos às vezes ainda aparecem a defender. Hoje, o que não se consegue ver, mesmo com microscópio, é, talvez, o mais importante. Estamos já no tempo da Física Quântica!...Há, porém, outras formas de Conhecimento, para além das (ainda) reduzidas veerdades obtidas com o método experimental.

A Nação-povo como 'Comunidade Jurídica política' é de facto um produto da Revolução Francesa. Mas a ideia de que as Nações não são (ao menos também) «comunidades de valores», se quisermos ser eruditos, e apenas «comunidades biológicas» é muito fraca. É, talvez, considerar a Nação Alemã, no século XIX, no tempo de «Romantismo Alemão», como sendo uma «outra coisa» e, considerar, por exemplo, os Bosquímanos do Kalahari uma 'Nação'... Pode ser um exagero e não me leve a mal - que eu até simpatizo com a sua forma resoluta e explícita de dizer as coisas. Mas, a questão crucial, parece-me, é que você não considera devidamente todos os planos relevantes e tem uma perspectiva demasiado redutora da realidade. Mas é um prazer assistir a uma polémica calma e sempre sob a tentativa de bem justificar as respectivas posições.

VL